11 dezembro, 2009

Oração

            A vida pra mim é uma verdadeira prece. Todos os gestos são como as mãos em oração e as mãos em oração são a louvação da vida. Cada palavra é uma prece de agradecimento ou de pedido à própria vida. Cada comunhão, cada encontro e cada contato é um culto aos presentes. Eu levo a vida como um rito, cada amor é como um mito e cada movimento é como um grito. Dê, vida! Cada refeição é uma oferenda e deve ser apreciada como tal. Um dia é mais um sopro de vida e deve ser aproveitado, mas, de fato, nunca vi um jeito de desperdiçá-lo por completo. Os sentimentos são tudo aquilo que deve acontecer na vida, e tudo o mais ocorre em volta deles, como os santos e anjos. Deles, o amor é talvez o mais nobre e a dor, sim, o mais forte. E sentir é estar vivo. Estar sendo! O suor são gostas de vida já totalmente aproveitadas por você, que serão agora mais úteis ao ar e à terra. Seus sais, odores, e a água em você, aquele verdadeiro líquido da vida, se espalharão pelos animais, pelos seres, pelas planta; e só de estar, você é no ambiente, você faz parte e você também invade, como influência, se espalhando por todos os outros corpos, o seu. O seu sono é porque nenhum de nós agüenta viver incessantemente, sono é já ter vivido demais e insônia, de menos. É quando seu corpo lhe pede que pare, um descanso, que também é de vida, para um recomeço, que eu também agradeço; ver o sol cruzar o horizonte, surgindo ou desaparecendo, é a maior das orações.

09 dezembro, 2009

Há de Ser

Tem quem se contente em estar sempre de mal,
            sempre doente, naquele mau-humor viral
            Mas eu não agüento, um dia triste é muito,
(mas que nele se sofra, sinta tudo)
            pra depois melhorar, mas melhorar direito
           
            Há de se sorrir, há que se cantar,
            Há muito o que dançar, há muito o que pular
            Há que se ser feliz, a vida é só uma vez, de uma vez!
            Há de ser feliz, há de ser feliz!

04 dezembro, 2009

Criança II ou Amor,

             Sabe, hoje é o meu aniversário. E porque eu pararia pra escrever algo sobre ele logo assim, no meio do dia? São duas da tarde! Mas, ah!, eu não posso perder esse amor todo aqui. Hoje, também foi o último dia na escola, e hoje também estou comemorando a aprovação em uma prova, droga de palavra essa, “aprovação”, não é coisa que criança fale. É, sou sim, sou criança, hoje e pro resto da vida, não quero mais nada, sou criança. Hoje eu tomei banho de chuva, e meus amigos, bom, uma parte deles tava lá, e a outra também, mas não de maneira tátil, o que importa é que hoje acho que a felicidade tava lá, e tava com todo mundo. Hoje eu pulei, abracei, devo até ter chorado, mas eu não reparei, porque eu tava muito molhado, eu tava todo molhado. Molhado do prazer, eu to molhado de alegria. Hoje eu cheguei em casa e li que um cara fez a biografia da Clarice Lispector, sabe?, aquela moça super importante; se fosse um dia antes ia me sentir mal, sabe, porque eu nunca li Clarice e eu ia pensar que deveria ler. Mas hoje, a partir de hoje, eu descobri que não. Eu posso ler, e eu vou, sei que vai ser bom, mas eu compartilho outra coisa com ela e com o resto das pessoas. O moço que fez a tal da biografia disse que ela devia ser muito feliz, e eu ri, eu ri disso por dentro, eu sabia exatamente o que era ser feliz, eu acho que a Clarice vivia todo dia assim, que nem eu vivi hoje, e eu quero viver assim, sabe? Por último, eu também li uma pessoa me dizendo pra tomar banho de chuva, pra sujar a roupa. E eu ri de novo, eu ri duas vezes comigo mesmo! Eu tinha ouvido o conselho dela, eu tinha mesmo ouvido; e aí eu peguei pra escrever isso aqui. Sabe, eu descobri que o que importa na vida mesmo é o amor, porque com meus amigos hoje, todos molhados, os abraços, que abraços fortes!, que alimentos, todos, todos sentiram, eu sei. Hoje, o meu abraço é o melhor do mundo, o meu sorriso é o mais alegre, hoje deve ser o meu dia mesmo. Porque todos são, eu acho que o que importa, no fundo, no fundo, na vida toda, na vida mesmo, o que importa mesmo, é o amor. Eu acho que eu nasci pra isso e eu acho que essa grande criança que eu sou não tem nada pra dar pras pessoas além disso. Eu te digo com a maior força que eu tenho na voz, eu te olho do jeito mais profundo que eu sei fazer. Sinceramente, eu te amo.

03 dezembro, 2009

Criança I

            Eu percebi, já tem um bom mês que eu to percebendo, to sentindo isso. Essa criança, aquela criança que mora no meu peito, bem, morava... nem sei mais. Eu acho mesmo é que ela ta escondida lá dentro, é, deve ser isso, ela deve estar escondida lá no fundo da droga do meu coração. Porque, caralho!, cadê a minha risada? Cadê o meu sorriso? Eu falo palavrão de cinco em cinco minutos, e também se não falasse, ah! eu ia explodir com isso tudo aqui dentro.
            Não sei pra onde foi aquele riso do sol, aquela vontade imensa de passar o natal na casa da avó, aquela alegria de encontrar os amigos, pra onde foi o apreciar do vento? Sei que ta tudo cada vez mais longe, longe, longe. Aquela criança dentro de mim, aquilo que eu sempre achei que fosse o mais importante, ta indo, e eu só tenho que, eu só tenho que agarrar a mão dela. Eu vou lá puxar ela de volta, eu vou lá!

01 dezembro, 2009

A Gruta

            As pessoas têm medo de conhecer as coisas de verdade. As pessoas têm medo de profundidade, da gruta profunda, escura, tensa, de caminhos difíceis, doloridos, em que se tem que tatear; da gruta instável, de paredes onde estalactites e estalagmites descem e sobem de um dia pro outro, de paredes que desabam e se constroem a todo instante, o chão é tênue e pode faltar; na gruta onde nos olhos não se confia, da gruta de choro, a gruta da dor, descalço, espinhos no pé, te penetrando até o peito; uma gruta cheia de vida, a gruta se mexe, ela te toca, ela foge também, mas ela sempre te alcança, tapa na cara, te bambeia, é nessas que você tropeça pra morrer,... levantar; andar de novo; a gruta é uma fera, é um som, um espaço, uma construção, um pedaço, um inteiro, confusão; as pessoas,
            tem medo de conhecer a gruta que elas são.

26 novembro, 2009

Daqui de Dentro

            Daqui de dentro, ninguém sabe
            e lá de fora, nada mostra
            tudo é sépia, tudo é fossa
            lento, calmo, tênue bossa,
                        do meu violão, da mão, do coração, da cabeça não
                        bossa sente, bossa chão,
                        pôr-do-sol de manhã
            Chove, eu rolo, tarde cinza;
            Como quando era e nunca tinha sido antes quando eu estou sozinho,
            como eu sei e gosto mais do que sempre do que sou, mas sou. Sozinho                           

24 novembro, 2009


Vida Transporte Coletivo

A vida, sim, essa sua vida mesmo
Com seus pormenores, suas porcarias
pelas suas mentiras, suas padarias!
O sol na praia, o sol do meio-dia
essa sua rotina, sua mais-valia
A vida, sua vida vazia
Da qual você reclama, essa com que você se engana
se escama, toda a sua trama...
Sem graça!
Um domingo na praça
Uma praça: da última janela, do último assento, do último ônibus, do último engarrafamento, do último dia, da última semana do seu frágil mês!
Vocês mesmos, seus porcos imundos!
Percebam: A vida: é bela!

18 novembro, 2009

Subida

Droga de vida
essa rua escura
a garrafa no fim
a  cabeça no talo
e o coração no fim
a cabeça no fim
e o coração no talo
a dor no talo
e o olhar no rótulo
e a roupa rota
na rota de cada esquina
trólebus, outra menina
outra noite, cafeína

10 novembro, 2009

Outro Gomo desse Corpo da Alma

            Será que até o fim eu encontro alguém?,
            Pra sentir tudo, abraçar tudo,
            E cada olhar ser cumplicidade e sentimento
            E cada dia ser verdadeiro, intenso,
outro Humano,
outros defeitos e qualidades
Alguém pra entender isso tudo,
e pra deixar que eu entenda, os seus medos, seus desejos, suas dores, e até alegrias...
pra me dar a mão, e caminhar alma a dentro, em exploração
pra gente se descobrir e se fundir num só
E sentir um só
Pra estar um, e estar dois
Pra morrer um, e ficar um: inteiro
E, principalmente, saber, sem ter evidência, que é verdade
Será que já não encontrei?

06 novembro, 2009

Meio Fio

            Eu entro no banheiro, lavo o rosto; me encaro no espelho: aquele rosto magro, seco, os olhos vermelhos, as olheiras fundas. Dou dois passos pro lado, levanto a tampa de plástico que bate na parede e ressoa aquele som seco, chato, por toda a casa, quebrando o silêncio de todo aquele numeroso grupo de familiares, resguardados e dormindo em seus quartos: digo pra mim mesmo, ou para alguém que acordou com o estrondo: ops..., mas sem realmente me importar. Olho o vaso branco, alguns pêlos ali caídos não sei de onde nem de quem. Eu quero voltar pra rua, e eu volto; por que diabos passei em casa? O maço de cigarros vai se queimando, deixando aquelas bitucas e fumaças que impregnam a calçada com a minha solidão tão preenchida. De concentração e do próprio sentimento de estar sozinho, me colocando naquela margem tênue entre ternura e desgosto comigo mesmo, aquela corda bamba que é o meio fio, até que eu caia completamente para um dos lados, com força, mas sem que ninguém perceba, porque a rua é imparcial à minha queda, ao meu êxtase,  e não deixa escapar nenhum som, absorve tudo. E que eu caia pro lado mais duro, com o sentimento mais forte, pra que esse sentir me torne mais vivo ou morto, mas que me torne mais; intensamente, como deve ser o sentimento.
***
            Pra que no lado mais duro, eu perca um dente de trás e ele salte de dentro da minha boca rasgando-a e espalhando sangue no asfalto onde meu rosto está lateralmente grudado, olhando a cidade erguer-se imponente, para o lado.
            E para que o poste,
            Como um holofote,
            Torne aquela noite inesquecível
            Como é a morte

31 outubro, 2009

Se cada dia é tão intenso,
porque eu não lembro de todos?
Se o sentimento de cada segundo não consegue gravá-lo na minha memória
Será que minha cabeça não aguenta?, ou será o meu coração?
           
(Perguntas escritas, para me dar rumo e para eu não esquecer)

25 outubro, 2009

Felicidade II (e outras coisas)

            Era quinta-feira à noite, e o aniversário do meu avô já tinha passado em dois ou três dias; minha mãe insistindo com todos os “você tem que ligar para o seu avô, ele vai gostar, mesmo sendo atrasado” e o meu ímpeto daquela rebeldia além do que sua mãe está acostumada, dizendo pra ela que não estava com vontade e pensando sobre aquela coisa toda de ter que amar essas pessoas porque talvez um gene seu – e talvez só um – seja comum a elas, mesmo que esse gene esteja no 48º cromossomo.
            Aí eu peguei o telefone: ele atendeu e já veio na minha cabeça “porra!, é sempre minha avó que atende e ele me surpreende desse jeito”, já fui logo tendo que improvisar, mudar do texto já todo planejado na minha cabeça que consistia em conseguir passar pelo estágio da avó rápido para dar os parabéns para o avô e dizer aquelas coisas bonitinhas, mas não. Ele atendeu. A segunda conversa virou primeira, eu fui logo soltando as desculpas de atraso e os parabéns e ele se emocionou, emocionou aquele pouquinho só que avô patriarca se emociona, mas gostou, no fundo eu sei que riu-se todo naquela risada que eu e meus primos tanto gostamos de ouvir quando dizemos depois do almoço, ele na poltrona, noticiário na tela: “quê que há velinho?”. E depois ele passou pra minha avó, e eu já estava embalado com o papo familiar, as frases animadas e os assuntos pseudo-fúteis (ou então pseudo-úteis) pulando pela boca, a voz subindo e descendo intercalando-se com a mesma animação no tom de Dona Arlete. E ela contou dos primos, contei das provas, contou da priminha nova de dois anos, contei do irmão e do meu pai filho dela... e contamos, contamos, foi uma conversa longa quando a referência de neto sou eu. Mandei os abraços, tarará, tururú, desliguei. Estava sorrindo sozinho.
            E aí a rebeldia agora tinha dividido espaço com aquela alegria sem explicação que vem às vezes – sem te explicar nada mesmo –, ela nem te avisa e vai jogando assim aquelas pitadas de satisfação nos seus músculos que vão ficando mais leves e boca que vai sorrindo mais pra todo mundo; seus avôs te ganharam e você está com aquela saudade do bolo, do cafuné, e da história todo que é “casa de vó” e todos os bônus que você já esqueceu que podem se tornar ônus se o prazo de estadia for demasiado longo.
            E talvez a rebeldia não seja assim seu único caminho, e talvez no fundo seus pais tenham um pouco de razão quando te dão todas aquelas dicas de saúde contra drogas – que você xinga de caretas antes de cuspir com raiva no chão da calçada, andando pela rua com a lua a pino, um tanto bêbado. Talvez fazer uma caminhada de manhã, manter um emprego estável e a cabeça centrada sem xingar mentalmente toda vez que vê um homem de paletó gravata gel sapato maleta passar falando ao celular sobre uma porcentagem qualquer, talvez tenha sentido. Talvez, tudo talvez! Você ainda desconfia, sempre desconfia, e ainda está no meio do caminho de qualquer decisão. Suas conclusões nunca são verdadeiramente conclusões e antes de começar a pensar nessa questão toda de saúde, do que você planeja para a vida, de qual será o seu emprego... você aprendeu a desconfiar daquilo que você próprio pensa, e muito mais do que os outros pensam. Você busca a felicidade, liberdade, e talvez deixar uns livros escritos, algum trabalho feito, mesmo que efêmero; você está caminhando.
            Você não; eu, eu contei tudo. Eu amo essas relações humanas, e fico feliz!

23 outubro, 2009

Cores

            Não se pode dizer que todos vêem as cores iguais. Descobrir um caso de daltonismo já é algo difícil, imagine se conseguiríamos um dia saber se o verde para mim é o mesmo para você. E não estou falando dos cones e bastonetes, mas da maneira como nosso cérebro pode interpretar as cores, ela pode mudar.
            Mas, de qualquer forma, sinto-me tão bem com o modo como eu vejo as cores. Quando eu dobro uma esquina... (oh!... puta exclamação): o verde em vários tons de uma árvore que tem o tronco sombreado, imóvel, o cinza sutil mesclado entre os muros desgastados de uma velha casa de bairro – ligeiramente atacada por galhos de hera – e o céu nublado ao fundo, definindo os vários planos da minha visão, e entre as nuvens raios de luz amarelados do grandioso sol das cinco da tarde; todas as cores opacas e poéticas de um domingo caminhando uns quarteirões por aí. Você anda um pouco e para, aquele ângulo é perfeito como o da próxima esquina, você parece fotografar aquela beleza efêmera, mas sem se preocupar em levá-la na memória porque logo a frente vai ter outra, leva apenas o sentimento. Ternura, felicidade, tudo bem baixinho na vibração tênue e regozijante do seu coração quase em silêncio a curtir tudo o que os olhos apreendem. E assim a rotina se renova, deixa de ser rotina, fica extra-ordinária, e a cidade se torna paisagem, selva de belezas para se explorar, por onde se caminhar sozinho e sorrir aquele sorriso solitário que se dá pra dentro. Cada esquina...

02 outubro, 2009

Balança

Ele estava abrindo um iogurte de cento e oitenta gramas enquanto atravessava a rua, daquelas tampas parecidas com papel alumínio, difíceis de abrir com a unha curta (a dele era). Metade da rua, metade da tampa. O ônibus passou na esquina, ele fechou a tampa de novo com força e começou a correr. Alcançou, deu o sinal atrapalhado com a mão que segurava o iogurte, apertando a embalagem que amassara. Sentou-se, suava; o iogurte se tornara uma pasta com tanto chacoalho, o ônibus estava quente.

ou

Ele estava abrindo um iogurte de cento e oitenta gramas enquanto atravessava a rua, daquelas tampas parecidas com papel alumínio, difíceis de abrir com a unha curta (a dele era). O trabalho era minucioso, tinha todo tempo e calma. Caminhava de cabeça baixa, seu cerebelo controlando seu andar automaticamente até o ponto do ônibus. Sentou-se, faltava só um quarto da tampa. Ergueu o olhar lentamente, o ônibus passava na sua frente, sem chance de pegar aquela condução. Sorriu, olhou as cento e oitenta gramas do que seria o mais delicioso iogurte da sua vida. Respirou fundo: bebeu.

Mural


            Num ímpeto organizacional, você corre para a escrivaninha, aquele espaço só seu no meio da sala, no meio da casa, e decide que precisa organizá-la. Você abre as gavetas, abarrotadas dos sem-lugar, sem-utilidade-imediata, sem-importância; esquecidos...
            Você encontra uma folha ou duas, até três. Lê, são textos de um mês, até uma semana atrás. E tem vontade de rasgar, queimar, fazer com que eles sumissem. Você pensa nas pessoas que leram, tem vontade de falar pra elas esquecerem aquilo, você mudou de idéia de tudo. Respira, pela primeira vez desde o início do parágrafo (do texto aqui).
            Começa a pensar no que ocorria em sua vida no momento em que escreveu. Você entende porque escreveu aquilo, mas continua controlando as mãos para não partir em dois todas as folhas. Mas você não pode, elas são sua vida, querendo ou não elas são parte do caminho que te trouxe até aqui. Você as guarda novamente, consciente ou inconscientemente, um pouco mais fundo na gaveta do que quando as encontrou.
            E você ri de si mesmo, e se conforma, de que suas idéias, assim como a escrivaninha, assim como o seu blog, assim como seus sentimentos, assim como sua vida, são mesmo grandes murais que vão e devem ser reconstruídos a todo instante. Gavetas que devem ter seus respectivos conteúdos sempre revisados, trocados, recolocados, refeitos, repensados... e tem por trás uma grande estrada, com patamares que, para alcançar, você usou escadas de que já não precisa ou não gosta mais. Mas tudo bonito como um móbile.

17 setembro, 2009

Felicidade I

Talvez eu ainda seja novo para definir conceitos, e ainda mais um tão importante como o de felicidade, mas vamos dizer que é a primeira vez que eu vou sintetizar minhas experiências sobre essa sensação; a primeira dentre as muitas, ou poucas, ou simplesmente entre as vezes que eu farei isso.
Talvez não, talvez eu já tenha maturidade intelectual.
De qualquer maneira, é isso que vou tentar fazer. As primeiras linhas são apenas um convite para que você caminhe ao meu lado na linha de pensamento que eu vou traçar...
Ultimamente, tenho estado mais sozinho. Mais do que fisicamente, eu estou me sentindo afastar dos "amigos", dos conhecidos, sinto-me mais solitário. Olhando para os lados, psicologicamente, vejo cada vez mais que estou sozinho nas causas, sozinho nos sonhos, sozinho na motivação, sozinho de muitos jeitos. Para falar a verdade, considero que tenho dois ou três amigos, mãe, pai - eu. E de todos esses, o único que realmente me apoia em tudo o que eu faço, sou eu. Claro, é assim para todo mundo, mas parece mais fácil mascarar a solidão, ela parece algo ruim. E por isso eu acho que ressaltam tanto sobre todas as pessoas que te apoiarão "na longa estrada da vida" - babozeira.
Eu digo: não, solidão não é ruim.
E eu nem vou cheguar a contar do auto-conhecimento que esses momentos em que estou sozinho me possibilitam, não agora.
O fato é que, a solidão nos leva a conhecer a dor. Não sei qual problema as pessoas parecem ver em confessar: estou triste. E foi então que eu descobri, estava feliz. Sim, como minha primeira definição de felicidade, eu diria que é um sentimento maior do que a alegria, a tristeza, a solidão, o amor e os eticeteras. É como se a felicidade englobasse todos esses e ser feliz fosse apenas sentir qualquer uma dessas outras emoções com força, com vigor, senti-la realmente, na alma e no corpo. Mas, eu mesmo me alarmo, ter cuidado: de nenhuma das emoções pode se abusar.

14 setembro, 2009

Verdade I

Ultimamente, grandes amigos tem sido a caneta e o Word. Sempre do meu lado, sempre me ouvindo. Grandes companheiros na empreitada do auto-conhecimento, eles me proporcionam uma relação bem sincera. Mas também, não é por falta de razão que recorro tanto à escrita – e começo a desconfiar de que esse é o motivo comum de todos, ou da maioria dos outros escritores –, no ponto em que começam os meus obstáculos nos relacionamentos cotidianos, começam também as minhas facilidades de escrever. Contar para o papel o que eu realmente penso.
            Os obstáculos de que falo se resumem a uma coisa bem simples: a falta de sinceridade. Não é simplesmente falsidade, a falsidade é uma coisa voluntária. Mas a humanidade tomou um caminho tal que já crescemos impelidos a esconder a verdade. É comum vermos a criança deixar o tio em situação de constrangimento quando comenta o seu excesso de peso. A mãe corre e repreende o filho, segurando o seu braço com uma força um pouco acima do normal e deixando aquela sensação gravada no menino. Mais alguns momentos desse tipo e ele já vai saber: não pode falar tudo o que pensa.
            Será que não agüentamos a verdade? É pesado demais aceitar um problema, dizer o que sente, falar o que pensa? A definição de doido (eu já ouvi isso de alguns psicólogos, mas não sei se é o senso comum) é a de uma pessoa que não suporta as regras da sociedade e cria um mundo em que ela possa ser ela mesma. Não somos todos um pouco loucos? Não somos todos oprimidos pelas regras, a boa educação, o comportamento a que somos levados a seguir na sociedade? O problema está mesmo dentro de nós?
            Talvez algum dia a sociedade chegue a esse nível de esclarecimento, talvez não. Enquanto isso, eu ainda precisarei ter meu caderno sempre por perto.

13 setembro, 2009

Menina-Laranja


Quero uma menina-laranja.
Uma menina azeda, do azedo pontual, nada de doce.
A cor amarelada, viva, radiante e discreta. A superfície escorregadia e cheia de sulcos (como os da pele, que só podem ser vistos bem de perto), que pode ser quase comparada a algo liso.
Quero mordê-la, rasgá-la sem medo e com raiva, mastigar, triturar, amassar, morder! Engoli-la pedaço por pedaço e ver o suco jorrar para todos os lados. Quero lambuzar as mãos, a boca, o peito, todo o corpo, sem nenhum escrúpulo. Limpar a mão em mim mesmo; ou na menina-laranja, apertar seus seios com dedos melados-molhados da seiva dela mesma.
Morder e ver o suco espirrar em seu corpo.
Quero poder destruí-la, quero que ela deixe! Com dentes, unhas, língua. Os restos rasgados eu quero poder jogar de lado e esquecer enquanto me sentir saciado, até minha vontade e fome voltarem.
Mas o melhor...
Quero colhê-la no pé, acariciar a casca antes de começar tudo. Quero ter que subir no galho mais alto para buscar a melhor fruta com a melhor essência. Pura, vinda da terra. E de lá, do ponto mais alto, eu vou olhar o sol e só ele vai nos ver, eu e a menina-laranja. E vai ser nosso cúmplice.
Ah!, ela me sacia até o pôr-do-sol.

31 agosto, 2009

Aquém do Limite do Sentir

            Eu vejo limitação na língua. Às vezes falta, e simplesmente falta. O próprio órgão trava, se retém no meio da boca. Em nenhum canto do vasto campo da memória eu acho algum jeito de dizer. Vou pelo tato, uso os sons, duas bocas apertadas muitas vezes quase sempre cumprem o papel de quase me satisfazer. Ou então um sorriso, correr, pôr o corpo em êxtase... até a exaustão. Ah, eu poderia correr muito agora. Eu me cansaria, seria um ótimo prêmio, subir no pódio. Não sei porque, mas, em vez disso, preferi abrir o Word. Não custa tentar. Será que eu consigo?
            Não sei o que é, isso que me aperta até tirar o ar, mas ao mesmo tempo me faz respirar mais firme. Eu não entendo mesmo – sou sincero – só conto aqui o que eu sinto, não acho que sejam floreios para impressionar uma garota (e o problema é que esses funcionam!). Dois pontos se contraem no meu peito, espremendo até a glote fechar sem a pressão interna. E depois o ar volta e queima tudo com a revigorante alegria e ânimo, e daí surge o texto, cuspido. É aí que me faltam as palavras, a imagem que toma minha mente, o som que fecha os meus ouvidos, até o cheiro (como escrever um cheiro?) – pensamentos. Sim, eu sinto que consigo escrever tudo isso, mas em momento algum vocês chegarão no íntimo do que eu quero mostrar. Há só um jeito: a experiência. O texto tem que completar uma idéia começada na vida! Isso me preocupa, quantos vão saber do que estou falando realmente?
            Mentira – me perdoem. Não me preocupa em nada. A missão já foi cumprida: eu corri a maratona e depois disso segue a exaustão, não me importa quantas pessoas ficaram sabendo da minha façanha. E as imagens, os sons na minha cabeça, eles me dão vontade de fazer um filme.

Liberdade

Com você, não sei o que me dá
Mas a felicidade se espalha no ar
Rodeia os meus braços e sustenta meu corpo
Me deixa mais leve, consideravelmente mais
E diz para que eu me leve
Para onde eu quero

Eu giro, danço
Os braços soltos vão para onde eu quero
Meus pés acompanhando o bailado,
Um gigando solto e suave
Como se eu pudesse voar,
Mas sem deixar de voltar para você,
E buscar em seus braços
Um pouquinho mais da felicidade,
Essa que me deixa tão feliz!

Um pássaro-bailarino feliz,
Talvez explique o que você me faz ser!...

14 agosto, 2009

Polivox Nosso

            Metade eu vejo, eu sinto, ta-lá, na minha frente. Meus olhos seguem, só não milimetram porque o amor não é de medir. O amor mais é sente, e transforma, como agora – em palavras. Essa metade está nas músicas, quando a gente deita. E os corpos apertam, as bocas se queimam, as mãos se tocam frias, e se esquentam (às vezes na barriga, até as costas). Dessa parte eu sei, conheço bem. No olhar, no jeito de olhar, no jeito. No rolar, dormir e acordar. E ficar, ficar acordado. Como eu conheço essa parte.
            Da outra, ela é sublime. Ah!, como é. Nos gestos invisíveis que meu inconsciente capta tão bem. Nos rostos que ela faz e só os cantos dos meus olhos sabem o que é. E as palavras que ela sussurra em silêncio no meu ouvido, pra fins de provocação ou só para aumentar o meu amor – hahaha!, “só”. Aumenta muito, os decibéis explodem a minha cabeça. Ela sabe o que é, ela sabe o que eu sinto. O choque que me queima os dedos quando ela encosta os dela nos meus.
E depois tudo para, silêncio, respiração. O contato entre nós é só saber que estamos ali, um ao lado, cabeças tão longe –      da terra. Perto de nossas vidas, aquelas que caminham no cosmos, a Via Láctea que vemos tão bem (ela sabe de onde). Ela me conquista!

Prato Pró-Fundo

E agora é um prato.
Prato com cérebro, menu com sotaque francês.
A faca parte. Caem pensamentos líquidos – amarelados. Seguem o contorno da louça, fazendo primeiro um círculo em volta de todo o prato, mas depois encharcando-o por completo. Eles são viscosos, muito viscosos! O mais refinado azeite, puro, transparente. O cheiro é doce, mas fica impregnado em todo o corpo, o corpo dela.
Mas ela não liga: diz: Foda-se!
Como ela sabe dizê-lo bem! Com força.
E depois, com a mesma fúria, a primeira mordida espirra sangue na mesa. A madeira escura faz reluzirem pequenas gotas. Os dentes se misturam à carne, começa o banquete. Mistura, me’stupra! Abre todo o córtex cerebral, ela põe pra dentro cada neurônio e não ousa deixar nenhum no canto do prato. A carne é boa.
Aquilo tudo vence a gravidade. Entope as fossas nasais, sobe para o cérebro. Os olhos delas esbugalham, pois atrás dele a uma massa rosada (como salmão em um temaki). Tá sufocada, mas não para. As garfadas ficam mais rápida a medida que as massas encefálicas se juntam. É uma coisa sô. E depois de tudo, soltando o garfo o mais rápido possível – um barulho estridente das louças se chocando – bebe até se afogar água cristalina. Destilada, substância pura, dá pura ao puro. E a luz toma seu corpo, todo, todo, todo. A medida em que a metamorfose se completa. Ela cai em êxtase no chão, e vai ficar assim até o fim da vida. Viva!

23 maio, 2009

Abre-Alas do Jardim

Eu me lembro do dia em que as pessoas
se juntavam em volta do túmulo
E naquele dia todas choravam pelo mesmo;
mesmo homem, mesmo dia
E não sabiam que ali tudo mudava:
Para um ou para todos. Ali, tudo mudo,
(Vo)ava

E no tempo dos choros, ou no contra-tempo dos soluços
Eu era talvez o único que pensava no sentido de tudo
E de tudo, o sentido é o que faltava.

Dois meses depois, eu decidia-ia decidir,
'Deci' dia (em diante), que meu epitáfio seria molhado de confetes