31 agosto, 2009

Aquém do Limite do Sentir

            Eu vejo limitação na língua. Às vezes falta, e simplesmente falta. O próprio órgão trava, se retém no meio da boca. Em nenhum canto do vasto campo da memória eu acho algum jeito de dizer. Vou pelo tato, uso os sons, duas bocas apertadas muitas vezes quase sempre cumprem o papel de quase me satisfazer. Ou então um sorriso, correr, pôr o corpo em êxtase... até a exaustão. Ah, eu poderia correr muito agora. Eu me cansaria, seria um ótimo prêmio, subir no pódio. Não sei porque, mas, em vez disso, preferi abrir o Word. Não custa tentar. Será que eu consigo?
            Não sei o que é, isso que me aperta até tirar o ar, mas ao mesmo tempo me faz respirar mais firme. Eu não entendo mesmo – sou sincero – só conto aqui o que eu sinto, não acho que sejam floreios para impressionar uma garota (e o problema é que esses funcionam!). Dois pontos se contraem no meu peito, espremendo até a glote fechar sem a pressão interna. E depois o ar volta e queima tudo com a revigorante alegria e ânimo, e daí surge o texto, cuspido. É aí que me faltam as palavras, a imagem que toma minha mente, o som que fecha os meus ouvidos, até o cheiro (como escrever um cheiro?) – pensamentos. Sim, eu sinto que consigo escrever tudo isso, mas em momento algum vocês chegarão no íntimo do que eu quero mostrar. Há só um jeito: a experiência. O texto tem que completar uma idéia começada na vida! Isso me preocupa, quantos vão saber do que estou falando realmente?
            Mentira – me perdoem. Não me preocupa em nada. A missão já foi cumprida: eu corri a maratona e depois disso segue a exaustão, não me importa quantas pessoas ficaram sabendo da minha façanha. E as imagens, os sons na minha cabeça, eles me dão vontade de fazer um filme.

Liberdade

Com você, não sei o que me dá
Mas a felicidade se espalha no ar
Rodeia os meus braços e sustenta meu corpo
Me deixa mais leve, consideravelmente mais
E diz para que eu me leve
Para onde eu quero

Eu giro, danço
Os braços soltos vão para onde eu quero
Meus pés acompanhando o bailado,
Um gigando solto e suave
Como se eu pudesse voar,
Mas sem deixar de voltar para você,
E buscar em seus braços
Um pouquinho mais da felicidade,
Essa que me deixa tão feliz!

Um pássaro-bailarino feliz,
Talvez explique o que você me faz ser!...

14 agosto, 2009

Polivox Nosso

            Metade eu vejo, eu sinto, ta-lá, na minha frente. Meus olhos seguem, só não milimetram porque o amor não é de medir. O amor mais é sente, e transforma, como agora – em palavras. Essa metade está nas músicas, quando a gente deita. E os corpos apertam, as bocas se queimam, as mãos se tocam frias, e se esquentam (às vezes na barriga, até as costas). Dessa parte eu sei, conheço bem. No olhar, no jeito de olhar, no jeito. No rolar, dormir e acordar. E ficar, ficar acordado. Como eu conheço essa parte.
            Da outra, ela é sublime. Ah!, como é. Nos gestos invisíveis que meu inconsciente capta tão bem. Nos rostos que ela faz e só os cantos dos meus olhos sabem o que é. E as palavras que ela sussurra em silêncio no meu ouvido, pra fins de provocação ou só para aumentar o meu amor – hahaha!, “só”. Aumenta muito, os decibéis explodem a minha cabeça. Ela sabe o que é, ela sabe o que eu sinto. O choque que me queima os dedos quando ela encosta os dela nos meus.
E depois tudo para, silêncio, respiração. O contato entre nós é só saber que estamos ali, um ao lado, cabeças tão longe –      da terra. Perto de nossas vidas, aquelas que caminham no cosmos, a Via Láctea que vemos tão bem (ela sabe de onde). Ela me conquista!

Prato Pró-Fundo

E agora é um prato.
Prato com cérebro, menu com sotaque francês.
A faca parte. Caem pensamentos líquidos – amarelados. Seguem o contorno da louça, fazendo primeiro um círculo em volta de todo o prato, mas depois encharcando-o por completo. Eles são viscosos, muito viscosos! O mais refinado azeite, puro, transparente. O cheiro é doce, mas fica impregnado em todo o corpo, o corpo dela.
Mas ela não liga: diz: Foda-se!
Como ela sabe dizê-lo bem! Com força.
E depois, com a mesma fúria, a primeira mordida espirra sangue na mesa. A madeira escura faz reluzirem pequenas gotas. Os dentes se misturam à carne, começa o banquete. Mistura, me’stupra! Abre todo o córtex cerebral, ela põe pra dentro cada neurônio e não ousa deixar nenhum no canto do prato. A carne é boa.
Aquilo tudo vence a gravidade. Entope as fossas nasais, sobe para o cérebro. Os olhos delas esbugalham, pois atrás dele a uma massa rosada (como salmão em um temaki). Tá sufocada, mas não para. As garfadas ficam mais rápida a medida que as massas encefálicas se juntam. É uma coisa sô. E depois de tudo, soltando o garfo o mais rápido possível – um barulho estridente das louças se chocando – bebe até se afogar água cristalina. Destilada, substância pura, dá pura ao puro. E a luz toma seu corpo, todo, todo, todo. A medida em que a metamorfose se completa. Ela cai em êxtase no chão, e vai ficar assim até o fim da vida. Viva!