31 outubro, 2009

Se cada dia é tão intenso,
porque eu não lembro de todos?
Se o sentimento de cada segundo não consegue gravá-lo na minha memória
Será que minha cabeça não aguenta?, ou será o meu coração?
           
(Perguntas escritas, para me dar rumo e para eu não esquecer)

25 outubro, 2009

Felicidade II (e outras coisas)

            Era quinta-feira à noite, e o aniversário do meu avô já tinha passado em dois ou três dias; minha mãe insistindo com todos os “você tem que ligar para o seu avô, ele vai gostar, mesmo sendo atrasado” e o meu ímpeto daquela rebeldia além do que sua mãe está acostumada, dizendo pra ela que não estava com vontade e pensando sobre aquela coisa toda de ter que amar essas pessoas porque talvez um gene seu – e talvez só um – seja comum a elas, mesmo que esse gene esteja no 48º cromossomo.
            Aí eu peguei o telefone: ele atendeu e já veio na minha cabeça “porra!, é sempre minha avó que atende e ele me surpreende desse jeito”, já fui logo tendo que improvisar, mudar do texto já todo planejado na minha cabeça que consistia em conseguir passar pelo estágio da avó rápido para dar os parabéns para o avô e dizer aquelas coisas bonitinhas, mas não. Ele atendeu. A segunda conversa virou primeira, eu fui logo soltando as desculpas de atraso e os parabéns e ele se emocionou, emocionou aquele pouquinho só que avô patriarca se emociona, mas gostou, no fundo eu sei que riu-se todo naquela risada que eu e meus primos tanto gostamos de ouvir quando dizemos depois do almoço, ele na poltrona, noticiário na tela: “quê que há velinho?”. E depois ele passou pra minha avó, e eu já estava embalado com o papo familiar, as frases animadas e os assuntos pseudo-fúteis (ou então pseudo-úteis) pulando pela boca, a voz subindo e descendo intercalando-se com a mesma animação no tom de Dona Arlete. E ela contou dos primos, contei das provas, contou da priminha nova de dois anos, contei do irmão e do meu pai filho dela... e contamos, contamos, foi uma conversa longa quando a referência de neto sou eu. Mandei os abraços, tarará, tururú, desliguei. Estava sorrindo sozinho.
            E aí a rebeldia agora tinha dividido espaço com aquela alegria sem explicação que vem às vezes – sem te explicar nada mesmo –, ela nem te avisa e vai jogando assim aquelas pitadas de satisfação nos seus músculos que vão ficando mais leves e boca que vai sorrindo mais pra todo mundo; seus avôs te ganharam e você está com aquela saudade do bolo, do cafuné, e da história todo que é “casa de vó” e todos os bônus que você já esqueceu que podem se tornar ônus se o prazo de estadia for demasiado longo.
            E talvez a rebeldia não seja assim seu único caminho, e talvez no fundo seus pais tenham um pouco de razão quando te dão todas aquelas dicas de saúde contra drogas – que você xinga de caretas antes de cuspir com raiva no chão da calçada, andando pela rua com a lua a pino, um tanto bêbado. Talvez fazer uma caminhada de manhã, manter um emprego estável e a cabeça centrada sem xingar mentalmente toda vez que vê um homem de paletó gravata gel sapato maleta passar falando ao celular sobre uma porcentagem qualquer, talvez tenha sentido. Talvez, tudo talvez! Você ainda desconfia, sempre desconfia, e ainda está no meio do caminho de qualquer decisão. Suas conclusões nunca são verdadeiramente conclusões e antes de começar a pensar nessa questão toda de saúde, do que você planeja para a vida, de qual será o seu emprego... você aprendeu a desconfiar daquilo que você próprio pensa, e muito mais do que os outros pensam. Você busca a felicidade, liberdade, e talvez deixar uns livros escritos, algum trabalho feito, mesmo que efêmero; você está caminhando.
            Você não; eu, eu contei tudo. Eu amo essas relações humanas, e fico feliz!

23 outubro, 2009

Cores

            Não se pode dizer que todos vêem as cores iguais. Descobrir um caso de daltonismo já é algo difícil, imagine se conseguiríamos um dia saber se o verde para mim é o mesmo para você. E não estou falando dos cones e bastonetes, mas da maneira como nosso cérebro pode interpretar as cores, ela pode mudar.
            Mas, de qualquer forma, sinto-me tão bem com o modo como eu vejo as cores. Quando eu dobro uma esquina... (oh!... puta exclamação): o verde em vários tons de uma árvore que tem o tronco sombreado, imóvel, o cinza sutil mesclado entre os muros desgastados de uma velha casa de bairro – ligeiramente atacada por galhos de hera – e o céu nublado ao fundo, definindo os vários planos da minha visão, e entre as nuvens raios de luz amarelados do grandioso sol das cinco da tarde; todas as cores opacas e poéticas de um domingo caminhando uns quarteirões por aí. Você anda um pouco e para, aquele ângulo é perfeito como o da próxima esquina, você parece fotografar aquela beleza efêmera, mas sem se preocupar em levá-la na memória porque logo a frente vai ter outra, leva apenas o sentimento. Ternura, felicidade, tudo bem baixinho na vibração tênue e regozijante do seu coração quase em silêncio a curtir tudo o que os olhos apreendem. E assim a rotina se renova, deixa de ser rotina, fica extra-ordinária, e a cidade se torna paisagem, selva de belezas para se explorar, por onde se caminhar sozinho e sorrir aquele sorriso solitário que se dá pra dentro. Cada esquina...

02 outubro, 2009

Balança

Ele estava abrindo um iogurte de cento e oitenta gramas enquanto atravessava a rua, daquelas tampas parecidas com papel alumínio, difíceis de abrir com a unha curta (a dele era). Metade da rua, metade da tampa. O ônibus passou na esquina, ele fechou a tampa de novo com força e começou a correr. Alcançou, deu o sinal atrapalhado com a mão que segurava o iogurte, apertando a embalagem que amassara. Sentou-se, suava; o iogurte se tornara uma pasta com tanto chacoalho, o ônibus estava quente.

ou

Ele estava abrindo um iogurte de cento e oitenta gramas enquanto atravessava a rua, daquelas tampas parecidas com papel alumínio, difíceis de abrir com a unha curta (a dele era). O trabalho era minucioso, tinha todo tempo e calma. Caminhava de cabeça baixa, seu cerebelo controlando seu andar automaticamente até o ponto do ônibus. Sentou-se, faltava só um quarto da tampa. Ergueu o olhar lentamente, o ônibus passava na sua frente, sem chance de pegar aquela condução. Sorriu, olhou as cento e oitenta gramas do que seria o mais delicioso iogurte da sua vida. Respirou fundo: bebeu.

Mural


            Num ímpeto organizacional, você corre para a escrivaninha, aquele espaço só seu no meio da sala, no meio da casa, e decide que precisa organizá-la. Você abre as gavetas, abarrotadas dos sem-lugar, sem-utilidade-imediata, sem-importância; esquecidos...
            Você encontra uma folha ou duas, até três. Lê, são textos de um mês, até uma semana atrás. E tem vontade de rasgar, queimar, fazer com que eles sumissem. Você pensa nas pessoas que leram, tem vontade de falar pra elas esquecerem aquilo, você mudou de idéia de tudo. Respira, pela primeira vez desde o início do parágrafo (do texto aqui).
            Começa a pensar no que ocorria em sua vida no momento em que escreveu. Você entende porque escreveu aquilo, mas continua controlando as mãos para não partir em dois todas as folhas. Mas você não pode, elas são sua vida, querendo ou não elas são parte do caminho que te trouxe até aqui. Você as guarda novamente, consciente ou inconscientemente, um pouco mais fundo na gaveta do que quando as encontrou.
            E você ri de si mesmo, e se conforma, de que suas idéias, assim como a escrivaninha, assim como o seu blog, assim como seus sentimentos, assim como sua vida, são mesmo grandes murais que vão e devem ser reconstruídos a todo instante. Gavetas que devem ter seus respectivos conteúdos sempre revisados, trocados, recolocados, refeitos, repensados... e tem por trás uma grande estrada, com patamares que, para alcançar, você usou escadas de que já não precisa ou não gosta mais. Mas tudo bonito como um móbile.