26 novembro, 2009

Daqui de Dentro

            Daqui de dentro, ninguém sabe
            e lá de fora, nada mostra
            tudo é sépia, tudo é fossa
            lento, calmo, tênue bossa,
                        do meu violão, da mão, do coração, da cabeça não
                        bossa sente, bossa chão,
                        pôr-do-sol de manhã
            Chove, eu rolo, tarde cinza;
            Como quando era e nunca tinha sido antes quando eu estou sozinho,
            como eu sei e gosto mais do que sempre do que sou, mas sou. Sozinho                           

24 novembro, 2009


Vida Transporte Coletivo

A vida, sim, essa sua vida mesmo
Com seus pormenores, suas porcarias
pelas suas mentiras, suas padarias!
O sol na praia, o sol do meio-dia
essa sua rotina, sua mais-valia
A vida, sua vida vazia
Da qual você reclama, essa com que você se engana
se escama, toda a sua trama...
Sem graça!
Um domingo na praça
Uma praça: da última janela, do último assento, do último ônibus, do último engarrafamento, do último dia, da última semana do seu frágil mês!
Vocês mesmos, seus porcos imundos!
Percebam: A vida: é bela!

18 novembro, 2009

Subida

Droga de vida
essa rua escura
a garrafa no fim
a  cabeça no talo
e o coração no fim
a cabeça no fim
e o coração no talo
a dor no talo
e o olhar no rótulo
e a roupa rota
na rota de cada esquina
trólebus, outra menina
outra noite, cafeína

10 novembro, 2009

Outro Gomo desse Corpo da Alma

            Será que até o fim eu encontro alguém?,
            Pra sentir tudo, abraçar tudo,
            E cada olhar ser cumplicidade e sentimento
            E cada dia ser verdadeiro, intenso,
outro Humano,
outros defeitos e qualidades
Alguém pra entender isso tudo,
e pra deixar que eu entenda, os seus medos, seus desejos, suas dores, e até alegrias...
pra me dar a mão, e caminhar alma a dentro, em exploração
pra gente se descobrir e se fundir num só
E sentir um só
Pra estar um, e estar dois
Pra morrer um, e ficar um: inteiro
E, principalmente, saber, sem ter evidência, que é verdade
Será que já não encontrei?

06 novembro, 2009

Meio Fio

            Eu entro no banheiro, lavo o rosto; me encaro no espelho: aquele rosto magro, seco, os olhos vermelhos, as olheiras fundas. Dou dois passos pro lado, levanto a tampa de plástico que bate na parede e ressoa aquele som seco, chato, por toda a casa, quebrando o silêncio de todo aquele numeroso grupo de familiares, resguardados e dormindo em seus quartos: digo pra mim mesmo, ou para alguém que acordou com o estrondo: ops..., mas sem realmente me importar. Olho o vaso branco, alguns pêlos ali caídos não sei de onde nem de quem. Eu quero voltar pra rua, e eu volto; por que diabos passei em casa? O maço de cigarros vai se queimando, deixando aquelas bitucas e fumaças que impregnam a calçada com a minha solidão tão preenchida. De concentração e do próprio sentimento de estar sozinho, me colocando naquela margem tênue entre ternura e desgosto comigo mesmo, aquela corda bamba que é o meio fio, até que eu caia completamente para um dos lados, com força, mas sem que ninguém perceba, porque a rua é imparcial à minha queda, ao meu êxtase,  e não deixa escapar nenhum som, absorve tudo. E que eu caia pro lado mais duro, com o sentimento mais forte, pra que esse sentir me torne mais vivo ou morto, mas que me torne mais; intensamente, como deve ser o sentimento.
***
            Pra que no lado mais duro, eu perca um dente de trás e ele salte de dentro da minha boca rasgando-a e espalhando sangue no asfalto onde meu rosto está lateralmente grudado, olhando a cidade erguer-se imponente, para o lado.
            E para que o poste,
            Como um holofote,
            Torne aquela noite inesquecível
            Como é a morte