26 dezembro, 2010

            Tudo
            Tudo é derradeiro
            Fogo
            Fogo é passageiro
            Muito
            Muito é mais que eu
            Eu
            Eu é recorte
            Sorte
            Sorte é o necessário.

16 dezembro, 2010

            Sou um homem de trânsito
            mudo, transgrido, me conformo
            não paro em sinal, não simbolizo
            percorro: não me encontro
            olho, olho, examino: não, não me encontro...
            transcrevo, aproprio, relevo, ignoro
            transito, transcrito
            circunscrito apenas no eu
                                               eu
                                               eu,
            agora e agora e em quantos existirem,
            ou em quantos eu parar pra pensar
            sou e por fora o não sou
            por fora o a mais
            o que se desfaz assim que falo
            o que é tão meu (ironia)
            que jogaria num ralo
            criá-lo-

            ia
            de novo
            num próximo movimento
            um momento
            comtempoativo, sigo
            e não nego, morro
            e não caio, saio
            e não levo, nevo... leve...
            e não chovo, choro
            e não demoro, movo-

            me.

09 dezembro, 2010

criançadelia I


"certezas efêmeras...", certeza? sorvete? bolo com cereja?
flores arrancadas do jardim - afinal, não cresciam sempre mais?
minhocas entre os dedos, lobisomens, aranhas, medos
beijos de mãe, santos remédios
mel com própolis. Santos nas casas dos avôs
eram os rostos encenando as histórias de onça, de sítio, de tios
"quando seu pai tinha a sua idade...", pais no trabalho
inventar brincadeiras com o baralho, brigar com as primas
fazer as pazes, ir nas casas dos amigos
poemas decompromissados, rabiscos colados nas paredes
rabiscos nas paredes
"espera, espera, deu sede!", mas já?

01 dezembro, 2010

            Surpreenda-me enda-me, me
dizendo endo
querendo sendo
um algo mais ais
rompa a barreira eira, entre nós
os possíveis amantes antes
aqui na minha cabeça eça esqueça
se eu disser qualquer coisa errada por favor, dor
é vir até aqui
quiprocó.

meu coração bate ate
nós dois pois agora caminhado até aqui
não dar mais pra voltar, ar
me falta chão, são
não mais, cais: você.

24 novembro, 2010

            Faço, refaço
            uma linha
            costuro um ponto
            ponho pontos, uns i’s sem pingos
            de afobação
            conto de cortar – não de ré(a)is
            história de tecer
            um dedo de furar
            desfaço um nó
            sem ninguém ver
            e uso a corda pra atar
            leitor e texto
            fera e coisa
            avidez que se não conhecesse
            não saberia da calma
            te         xt         o
                        ç         
            ma       cio
            tempo vadio
            gastado com figuras
            de tinta fresca
            na dita memória que eu tinha que ter
            mas cada retomar
           
            mais e mais
            me faz coser.

21 novembro, 2010

No canto direito tem status de nota
no centro é título
à esquerda é prosa

            O palco é rosa
            a pauta é mito
            à mão anoto
            com esse espaço incerto de dois dedos
            do canto da página
            um texto qualquer, uma lástima
que por definição não se definiria
mas eu desconfio de canto de olho
que é poesia.

10 novembro, 2010

façam-se sóis e sóis

            Façam-se sóis e sóis
            e sóis são os que mais se fazem
            abram-se flores e flores
            caiam folhas, folhas
            estações
            calendários naturais e caleidoscópios vivos
            condensem chuvas, chuvas
            nada perdura
           
            Tratem de beijar os beija-flores
            não há trato
            todos esses se fazem por se fazer
            discerniram por instinto
            solenidades
            coisas sem pontas. não perfuram
            perduram em mutações
           
            Mudos, sem se afirmar.
           
            Enchem conscientes leves
            de domingos chuvosos
            são imagens, as asas
            escorrendo no café por uma garganta
            vão bater no estômago
            um voar de intestino
            sanguíneo beija-flor:
            cafeína
            vai fazer eu passar o domingo
            passar leve por mim

            O beija-flor reflexo no café.
           
            A massagem que o tapete faz nos meus pés
            me faz estar
            também na relva de um pico
            e no som da flauta de
            um trovador
            isso porque...
            no pico trovoa
            na língua ressoa o que se diz
            gosto de manhã

            Parece um manjar
            de contentamento

            Cedo ao vento sedento
            vergo pro meio da tarde
            transfiguro tudo que se passa
            na grande vontade
            do mundo, muito maior que divina
            natural
            divina
           
            Abram-se flores e flores
            na ponta do meu nariz
            é só fechando os olhos que vejo
            tudo o que tenho,
            tateio em lembranças
            e tatuo seu toque cor-de-pele
            no meu peito nu descanso
            espero ela chegar...
           
            Noite clara alva
            no tapete da sala.

31 outubro, 2010

            No final, eu me vejo
            eu e a natureza sutil; calma de sabedoria que atravessou todos os tempos
            só ela existe sempre e
            se destruída, Será a destruição e se consumirá
            se nascer de novo, ela Será antes do nascimento, o nascimento será a
[natureza
            eu me vejo; parte dela,           a areia,
me cobrindo o corpo deitado
            a areia consumindo o meu cabelo, impregnada nele, deixando-o crespo e
[áspero
            e a minha pele seca e marcada pelo vento: durante anos me desgastando o
           [rosto, atacando e sulcando minha face
            o vento, vai me carregar (pra sempre) até os ouvidos de quem ainda se
[apega
            levando as notícias de que fui
            e de que sou
           
            que sou breve como um sopro, mas que faz parte de um redemoinho
            um redemoinho cinza e triste, mas calmo
            uma calma que talvez não valha a pena, mas vida
            uma vida tenra,

            a natureza em mim, eu a-guardo, intocada
            incansada, sem sentido, balançando enquanto vida como a onda,
            ainda em si, sofrendo a deriva da influência
            e balançando enquanto morte, enquanto natureza, como o vento
            o vento o próprio balanço
            o mar, descanso, incenso, defumador, vaporizador das minhas dores
            leva sempre pra ele                       água cada vez mais escuras
            dores, do todo que dele faz parte e
            ainda mais, do todo que ele é, se aventura, ternura
            no seu corpo;

aventurar-se em outro, enxerto,
incerto: fazer parte

30 outubro, 2010

Dia Um

            Crio, como criou um dia Deus
            deu que se criou o dia
                        e não sei como: mas essa descoberta ainda se adia
            ...Continuo
            Crio, realidades distorcidas
            acredito-as
            vê e mente veemente
            Trato, no meu trato com as pessoas
                        de fazer o tratado bem trapo
                        pra não ter que quebrar a cara depois
            Trato de fugir daqui
            e concordamos vamos todos.
           
            Penso. que raio de poemas curtos é esse?
                        como raios
            sou tão Deus que como-os
                        esses raios de sol granulados pedaços de chocolate
                                                                       dentro do meu café
            giram gira giram a colher
e os pedaços tão bonitos
            Mexer o café é mesmo um rito
            esquisito
                        nesse quesito, não deixo nada a desejar
           
            Só nesse, mexo a colher como ninguém, sei bem
            três pra direita, uma pra esquerda
            quantos hertz?quanto seu coração mandar

            eu ia dizendo...
essas realidades, acredito-as.

23 outubro, 2010

Eu não sei se meu flerte é bom.

Se eu simplesmente transpiro
do meu desejo por você,
mas é esse seu vestido bordado de flor
ou seu all-star roxo de cano médio
ou seu batom vermelho-me-morda
ou seu sorriso gentil
alheio à tudo isso
seu olhar febril; fixo
na paisagem:
toda vez que o ônibus passa do viaduto...

você dá sinal e desce,
quase sem reparar.
            eu, meus dias não-contados, minhas horas sofridas,
            bem-vividas, sentid
            as
            suas horas quilometradas, suas viagens planejadas,
            suas amigas e seus sorris
            os
            meus cigarros, queimando e queimando, meu coração,
            apertado, falta de tempo ou de vonta
            de
            mim, um beijo te ficou apertado, mas não muito
            longe, nós dois, vinho e
            só
            sempre só, sou eu, você sou eu
            pensando em algu
            em
            uma cama, nos misturamos
            somos, amamos
            amamos, somos
            orgas
            (ama)
mos,                          
mas você está longe.
                                    é só a minha cabeça, sou, só eu.

16 outubro, 2010

Eu quero ser um feto
num útero quente
ainda nem gente
esperando
pra varar uma boceta por inteiro
mesmo que não seja o primeiro
tocá-la toda
mesmo que dôa mais do que eu não possa imaginar
eu ainda não penso
sou um feto suspenso
em pura placenta
com cheiro de sexo e menstruação
ainda nem vida, ainda nem são
unhas,
as camadas de queratina nas pontas dos meus dedos
ainda nem são
medos, os movimentos bruscos no suco
                                                 vaginal
dedos, ainda colados, nadadeiras, eu nado
ainda que nada devas fazer

eu ser
mesmo nesse mundo sujo.

06 outubro, 2010

macio

            Me abracei e me vi
            feito de veludo macio
            mas não pode, era noite!
            e estava frio
            ou foi o vinho?
            Ou estou me mexendo como um rio
            molhado e em movimento
            ou é porque
            me sento,
            na cadeira de balanço
            ou é esse meu ranço
            de não sentir frio?
            a alegria é

            como um pio.

04 outubro, 2010

              O tempo passar arrastado
            curar uma dor funda do peito
            ficar na cama até mais tarde
            comer salada de frutas
           
            esquecer uma segunda-feira é viver um domingo.

22 setembro, 2010

Café II

Tomar café longe de você
é como se fosse leite puro
juro; não sei por que isso
mas não quero crescer
e pra te gostar
ter que te perder
entende?
esse meu motivo pra não me agarrar
se eu tiver que tomar
um capuccino sozinho numa estação de trem
eu prefiro um tapa na cara.

20 setembro, 2010

quatorze-bis

Essas palavras se repetem
essas palavras se repetem
e eu não quero mais elas
essas palavras mazelas
essas palavras, más elas
e eu não quero, mas elas
se repetem

Mazelas,
se palavras eu quero
não más, se elas se repetem,
mas, se repetem
repetem mais palavras
não eu
essas não quero
se más elas se repetem
palavras quero eu
não mazelas

Quero elas,
mas não palavras más,
essas mais se repetem
se eu... (e mazelas)

16 setembro, 2010

e estávamos nós dois
a limpar lágrimas
eu, de sono
e ela de tristeza mesmo
que é do que deviam ser feitas todas elas,
se o feitio não fosse tão errado
quanto meu sono numa terça feira

15 setembro, 2010

Ponte

O sono parece sempre apagar aquelas insônias do dia anterior
e acordo vazio
chio, por que não lembro?
quero saber do meu humor
um momento antes do sono
que alegria eu sei que era
tal era, de cobertores, o meu abono

mas hoje,
com a ducha morna na nuca,
sem ter abrido ainda os olhos
peço que tenha ido com você
toda a lembrança de sua partida

09 setembro, 2010

Coisa

Pra ler esse poema
é necessário:
subverter o pensamento
multiplicar pela base do produto
sujá-lo de unguento
achar o quadrado de pi
tangenciar o pib estratosférico
se formar técnico estadual
tocar Bach em quarti-fuso
enquanto bate ovos de bolo
escovando os dentes de uma baleia
na párabola da expressão
ter o pé nas nuvens
enquanto lambe o chão.
tudo isso
são

06 setembro, 2010

um poema pode ser uma linha só logo sai da agulha já vira pó como a gente logo diz ô dó

Seco, seco

            Os dias não iam quentes, mas iam secos. E a Tropicália de Caetano era a Bahia, entrando pela janela de nuvens brancas ou nuvem nenhuma, céu azul, azul... ás vezes um pássaro, um jato. No quarto só um livro, nunca terminado, no canto os sapatos, e na minha cabeça a saudade. Amanhã, amanhã sim, vou pegar o ônibus, do mesmo cheiro, de suor de trabalho de perfume de mulher de saudade de copo de café de café com leite de café amargo de pasta com os trabalhos de camisas ligeiramente desabotoadas de homens cansados de homens pouco vividos de jovens universitários e futuros resolvidos de fones de ouvido de jornais baratos sangrentos de saco cheio daquilo. Mas, encontrar você no fim do caminho, um segundo, aula, um intervalo, aula, um almoço. Te chamar de menina, não de moça, como chamo as atendentes da clínica do exame de sangue. Os dias são secos, eu nem lembro como é a chuva. Só sei que quando te arranho por debaixo da camisa, fica uma marca, que nem branca é, porque branca já é sua pele. E as aulas tornam-se difíceis, matam-me o amor, eu faço uma lista, anti-amores: distância, escola secundarista técnica, mais do que cinco latas de cerveja, conhaque (em qualquer dose maior que uma dose, mas você nunca mede), dias quentes e secos demais (salvo aqueles deitados no chão frio da minha casa, de ventilador ligado, sem camisa, e corpos ainda suados, “eu ganhei um tapete”), conversas de família em almoços e lanches da tarde – hoje ninguém mais janta – salvo os assuntos animados, nos primeiros trinta minutos de conhecer família. Mas, passado isso tudo, ainda tem um mundo, esperando lá fora, eu só conto as horas, tu sorri e choras, mas a carne ainda é nova, e a pele ainda é lisa; a janela aberta faz entrar a brisa, e fica um pouco menos seco. Baldes d’água no nosso quarto.

05 setembro, 2010

quem são essas pessoas todas que me povoam?
que fazem meu gesto,
que gesto é meu? eu corro nas pessoas,
eu corro de olhares,
por todos os cantos
eu observo os santos nas paredes de outras casas
eu rio com os moradores
quão santos são

que alegria é essa que eu carrego?
não nego, vivo, não nego
choro, rio
caudaloso é estar feliz
assim, de borboleta na ponta do nariz

Ameno-amores, sobre jornal e mulheres

Fecho o jornal
(baixo astral - cabível)
penso nas garotas,
oposto indomável,
posso perder todas
e posso ter só uma
mas no fim
ainda sou escravo
pois o amor
ainda é indizível
e não cabe
nas páginas fecháveis
do jornal.

02 setembro, 2010

a... cred... ito

Eu acredito num mundo
de pessoas, não de coisas,
de baixo pra cima
de samba e de rima
de festa, mas de trabalho,
eu acredito
mas também sei do mito
do lúdico,
sei que sou único
e conheço cada dia mais
outros,
que viram sorrisos
regado a suco ou cerveja,
meu amor pelas pessoas
se faz na certeza
de que são
e são profundas

acredito e desacredito
quando fico com medo, grito
e ele responde silêncio...

29 agosto, 2010

palavras curvas culpas

se o universo todo me culpa,
eu não o faço
e tudo que é ((d)essa) palavra, rápido se quebra
porque desejo mesmo
só aquela velha febre,
de botar os olhos fundos, de graves olheiras
recostado à cabeceira,
sobre tão suas tão nuas,
curvas
carnes
acordar e já sofrer o desarme
perder todo o argumento
e toda a dor
(que seja um dia, um momento)
amor?

um Segundo

Tenho um segundo

Um mundo inteiro

Tenho um inteiro

Em mil pedaços

Tenho estilhaços
           
É seu coração

Tenho um palhaço

Tens razão

Que não se cansa

Diz, sim ou não?

Dança, dança, dança

Dentro de mim

Força, isso sim

Pra que ele nunca morra

Se mova, se mova, se mova...
           
Se mova... se mova...

21 agosto, 2010

Café I

            Seu café é muito doce
            eu não reclamo
            eu não sei o que faço, eu tremo
            meu sorriso e minha poesia perto
de você são de criança, eu temo
            nossa amizade é um tecnicolor

            nosso amor, sobra, esfarela, esmigalha, rasga, e ainda sobra
eu, menino
com sua boca seus olhos, rimo
sismo de fazer tudo como imagino
você, menina
sinto poder dizer: sina
            ...num jardim de infância

11 agosto, 2010

o despertador não desperta
a manhã não amanhece
mãos apenas, quero dizer, dedos...
é o quê se vê, puxando o cobertor
para até as orelhas
dedos magros, pele já marcada

quero dizer, olhos...
apenas: sem óculos,
olhando
uma xícara de café no criado-mudo,
branca com pires, cerâmica de mãos,
pessoas trabalhando nos cafezais

e a fumaça dançando a embriagá-lo
ora, um dia simplesmente se perde a hora
perde-se aquele compromisso todo
omisso de todo, interno de praxe
José ouve os chinelos arrastados, que horário seria?
...se já acordara Maria...

o quarto
amarelado de velho
cheio de vida,
aliás, era ela própria
que se desenrolava sem hora.

29 julho, 2010

            Vicio-me em mim. Fecho-me, guardo-me, preservo-me. Passo horas e horas sozinho. Me sufoco de solidão. Saio, caminho na rua e vejo o anoitecer tocando as paredes, arranhando-as com as suas unhas alaranjadas, últimos raios do Sol; escorregando até a linha do horizonte. Paredes. Paredes entre eu e as pessoas, trancadas em seus carros, atrás da fumaça de seus cigarros. As lanchonetes, os pontos de ônibus. Falta alguém, mas nada falta, todos faltam. Lágrimas, volto, me tranco num quarto. Ninguém, nem nas frestas dos tijolos, nem nos cantos dos cômodos, ninguém.

13 julho, 2010

             Leio qualquer coisa, mas já esqueço. Perdoe-me quem escreveu, mas meu olhar voa e volta pro que é meu. Um sorriso?... não, um choro. Penso nela e nela e nele, e coro. Imagino uma possibilidade de morte qualquer, de corte mulher. E esqueço, mas já esqueço? Me perco, estacado em feição de medo, na minha cama, imagino uma possibilidade de morte qualquer, em segredo. E cresço? Lanço raízes para todos os lados, domino o quarto, desejo um parto, claro!...
A noite cai, escurece, a solidão vem, (como se não existisse antes) me entristece. Não existia. E eu pensava nela e nela, ia e ia...
            crises convulsivas de choro
            acompanham qualquer constatação feliz que possa ter
            depois de toda tarde de sol
            a noite cai e, impiedosa, o apazigua o fogo de vida

            a(o )final, de cada orgasmo – abismo não se separa

07 julho, 2010

            as pessoas não são certas
            as pessoas não se erram
            as pessoas não são erradas
            as pessoas nunca erram nada
           
            sentado no divã
            Davi viu logo
            que dali não saía,
            da vida, viva, ria
            Davi correu pra longe
e seu amor hoje é seu onde
e não é mais o que não esconde,
tudo o que não é, é fonte.

26 junho, 2010

            Um homem que desvia seu olhar
            do trânsito, tão inóspito e improdutivo
            e o aponta para o que realmente importa

            é atropelado.

            Atropelam-se homem de sentimentos,
            mas também de cheiros,
            de sabores,
            atropelam-se homens de dor.

            Homens de olhar vidrado,
            de pupilas dilatadas; captam toda luz
            homens de olhar bonito,
            de olhos brilhando pela falta de cigarro,
            homens de amor... atropelados.

17 junho, 2010

Percebi... o que a calma filtra o mundo em minhas têmporas,
e elas não latejam mais.
que o ódio e a raiva, eu não devo ter medo de dize-los,
mas, que rasgando no meu peito, (assaz)
floresçam em explosão, mantenham-me vivo, pois me fazem sê-lo

e me servirem também de motor,
são tudo o que me resta quando eu grito por dentro que o mundo não presta.
Ai!, da minha alma; ai, desta!
que ainda morre cedo, cedo de amor.

16 junho, 2010

            Gosto de café ou som de violão
            subjetivos, os seus olhares que a todo tempo fogem das
(nossas) palavras
correndo dos outros, correndo pra ficar só nos dois
me perfurando nos momentos que deve
e nos que se esquece de disfarçar,
onde eu te acerto, você sem disfarce, cara a cara

Correndo. posso ficar, só
mas vivo.

11 março, 2010

            Solto um grito
            vejo o mundo mais bonito
            fico um pouco menos aflito
            levo a vida como um rito
            tudo quanto é poesia, cito
            tudo o que é verdade, mito

04 março, 2010

Construo...
pra ela
momentos inesquecíveis
pra mim
poços infindáveis

25 fevereiro, 2010

hoje o céu é mais cinza
os passos no cimento mais ocos
o real é mais cocho

as sílabas são ímpares
as idéias são díspares
as árvores se mexem como se nunca tivessem dormido

13 fevereiro, 2010

Libertação

Eu gosto quando as respostas vêm com o vento. O sopro de um orixá, que balança as cabaças presas na parede, e aquele batuque calmo quebra o silêncio, e o olhar do homem saindo da rede e indo parar lá nas matas verdes que ainda não estão tão longe quanto seu pensamento chega. E ele chega lá trás dos montes, numa moça, numa família, numa casa cheia de crianças, numa vida ainda pra ter. A resposta vem num sopro, um vento...
Ele levanta, olha a casa pequena suja de terra, olha a estrada pra seguir, de terra. Coloca as cabaças nas costas, leva consigo algumas outras mudas de calças e blusas beges, deixa o sol bater na sua pele escura. Pra saber que a vida o espera, lá onde ele for chegar.

09 fevereiro, 2010

só me ela

Escrever sobre ela
escrever só me ela
escrever some, fica ela; Micaela,
Isabela, unha amarela,
batom vermelho, boca dela
uma bocadela, uma mordiscada,
amor, discada
a ligação cortada
a garganta engasgada
de mim, não sai nada

08 fevereiro, 2010

Qualquer coisa sobre mim. que quanto mais pesada mais esmagará meu corpo, eu vou cuspir minhas vísceras quase-todas e te contar o que eu sei e o que nem sou

Estar numa corda bamba que liga um abismo a um precipício, estar vivo, muitos nomes. Estar sonhando, estar acordado, muitas cores. O coração batendo, bombeando toda e qualquer sensação para cada milímetro de alma que engasgar minha garganta seca. Inundada, minha palma da mão de tinta, busca na parede lisa, fria, branca e cocha o corpo alheio de um amor ou de um passeio; de um amigo, busco as cores escorrendo pelas pontas dos dedos meu choro, meu suor, meus humores, meu suco de vida, minha saliva, minha urina. Meu sangue, carrega tudo aquilo que eu já disse e me transporta até o universo do medo, eu não posso me guardar (em) segredo, e a cabeça toda submersa, estremecido, já uma criança esvaecida, me persegue a chuva vermelha, a pele rachada, a grávida. Me persegue a calada. Eu. só em silêncio: só, em silêncio.