31 janeiro, 2010


Você me ama? Então, grita na minha orelha, porra, berra até eu cansar. Me faz escutar seu coração pela garganta. Sangra pelos lábios. Eu quero é a verdade, nada das suas dicas, nada desses seus subjetivos pra me conquistar devagar. Eu quero te amar em um beijo, eu quero te conhecer inteira numa noite.

30 janeiro, 2010

Guilherme

            Guilherme é daqueles caras enjoados, ele tem nome de enjoado. Passa muito tempo com os fones estourando, dizendo “sabe quando você quer que o mundo exploda um pouquinho? Eu tô assim”. Guilherme se comunica com seus amigos pela internet, combina de ir assistir filmes, adora os de zombies, destruição mundial e afins. Gosta de ver como as pessoas sobrevivem. Ele gosta da família, mas evita as reuniões e as tias que lhe doem as bochechas. Diz que é revoltado, houve Rage Against The Machine e sabe cantar todas as músicas. À noite sai com os amigos e fica bêbado. Usa camisas brancas e escreve nelas com canetas de quadro que rouba da escola. Usa jeans que ele mesmo rasga, mas gosta de comprar aqueles que já vêm assim, diz que são bem feitos. Duas vezes por semana acorda de madrugada e fuma um cigarro enquanto ensaia caras pensativas “olhando a cidade queimar” da janela. Vai a shows e lá sempre perde seus isqueiros. Gosta de dispensar as sacolas plásticas e economizar água, mas acha que o mundo não tem mais jeito e “o Greenpeace é só falação”. Odeia ler. Suas notas na escola são só o suficiente para ser aprovado. Tenta não caçoar dos outros, mas acaba soltando piadinhas pelas quais tem vontade de pedir desculpas depois; nunca pede. Tem vários amigos, mas poucos no sentido real da palavra, e sabe disso. Gosta de jogar bola de vez em quando, não quer ter filhos, acha que talvez encontre alguém com quem até aceitaria se casar, se não fosse na igreja. Anda com os olhos sempre putos e as mãos tremem um tanto. Não gosta de lugares muito cheios, ri de piadas inteligentes, vai aos...

28 janeiro, 2010

            Cada passo que eu dou e cada olhar deles. Cada raciocínio que eu desenho e cada adaptação deles. Controlam até o quanto eu me revolto, eles medem o quanto meu pé passa da linha. Eles sim, lá de baixo subvertendo a minha luta, subversivando o que está dentro da lei. Ninguém sabe ao certo quanto há pra cá quanto pra lá, a gente está perdido, a gente está perdendo. Eu não vou estar livre nunca, isso aqui é só tristeza.

27 janeiro, 2010

Abre-Alas do Jardim nº2

É preciso muita paz
e muita guerra dentro do peito
pra conhecer de si cada defeito
buscar e nunca ser perfeito
morte, vida, tudo vem do leito
deleitar-se
e nunca sujeitar-se
à vida menor que essa

11 janeiro, 2010

Somos Todos Nós

            Somos todos manias, loucuras
            somos todos segredos, angústias, alegrias e prazeres indecentes
            nos amamos, nos sentimos, nos odiamos, muitas vezes, nos odiamos
            crescemos, regredimos, nos aprendemos, nos apreendemos
            matamos, morremos, rezamos, preces pra nenhum homem
            vivemos, escondemo-nos nos becos, mostramos nossas caras em outdoors
            somos agressivos e todos loucos, somos todos manias!
            somos chatos, não nos suportamos e não nos fazemos suportar
            sempre, temos mais tristezas que felicidades,
            e buscamos todas elas sem parar, incessante, não dormimos direito
            buscamos a vida, agarramo-nos a ela com o que nós sobra do corpo
            somos seres mutilados, vesgos, tarados, irreparáveis, somos crianças
            amedrontadas, todos temos traumas
            não admitimos, não nos aceitamos e nossos símbolos são todos decadentes
            porque nunca temos meta, somos vários na carne de um só
            e aí enlouquecemos, somos loucos
            caímos pelas esquinas, morremos incessantemente e nunca nos cansamos
            nossos corpos são exaustos, cheios de olheiras, cheios de rugas
            nossas mentes pensam só o que queremos, somos todos limitados
            no final, limitados; a morte é a única saída
            somos, então
            nós mesmos
            nos mesmos esgotos de sempre, somos nós, o mesmos sempre, nós

10 janeiro, 2010

Você sente?
a espuma tocando nossos pés
chocando-se contra nossas canelas, sutis rochedos
Nossos pés na areia molhada; fôrmas de biscoito, pegadas
Você sente o vento passar
você ouve?
o sol rugir em silêncio brilhando o horizonte
Corações
Fusão nuclear
Corpos
Lar

O Menino que Dormiu Três Dias

            Aconteceu, então, que o menino dormiu três dias. A família diz – pois ele, de tanto dormir, esqueceu o porquê – que deve ter sido por grande tristeza, grande obra que acabara de terminar ou grande cansaço. Eu penso que ele já tinha mesmo é vivido bastante e entra aí um pouquinho das três coisas. Foi dar-se, então, como pessoa, só depois de acordar e , vê lá, que ainda demorou um tempo pra acreditar. Sabem vocês que em sonho somos todo tipo de coisa e os desejos são quase sempre realizados. Com três dias, então, que choque, acordar sem videogame, asas, gato, papagaio, jogos, amigos, sol, mar, cachorro, bolo, praia, nuvem, lobisomem, balas, cores, bolas, pirulitos, parangolés, cabriolés, zés-lelés, bichos de pés, em pés, acordar deitado.
            E o menino não podia mais pular na mesa como cachorro, voar no céu como passarinho, correr na grama feito zebra, andar de lado feito caranguejo, subir na árvore feio macaco, carregar gente feito cavalo, dar leite feito vaca, cuspir fogo feito dragão, enfrentar o dragão. Olhando pro chão, e tudo se esvaindo na sua frente, ele pensou: “ poder posso, é só usar a imaginação”. E, naquele momento, se contentou com isso. Porém, como tempo, ele viu que o mundo, mundo mesmo era bem diferente. E o menino olhava, mas não olhava; via, mas não via; ouvia, mas desouvia; comia, mas não comia. O menino só queria ficar lá, imaginando. E o menino não estava. E se não estava, não sentia. Ele ficou triste, vazio, muito mais do que devia – porque vocês sabem, ficar triste a gente pode, mas não muito.
            Aí o menino decidiu que em sua casa não cabia sua imaginação e nem nas cabeças das pessoas ali dentro. Então ele foi para a rua e chamou o mendigo de peregrino e com ele explorou a montanha; e chamou sua bicicleta de alazão e com ele sentiu o vento chacoalhar os cabelos; e decidiu que as árvores falavam e lhe contaram a história da cidade; e chamou o gato surrado de fera e chutou-lhe o focinho, confiante; e foi bandeirante, índio, cavaleiro, senhor, robô, domador, pássaro e escravo, espalhando sua história nas vozes e nos ventos das árvores, empunhando galhos-espadas e jornais-chapéus; e naquele dia o menino decidiu que nunca deixaria de ser menino. E assim foi.