22 setembro, 2010

Café II

Tomar café longe de você
é como se fosse leite puro
juro; não sei por que isso
mas não quero crescer
e pra te gostar
ter que te perder
entende?
esse meu motivo pra não me agarrar
se eu tiver que tomar
um capuccino sozinho numa estação de trem
eu prefiro um tapa na cara.

20 setembro, 2010

quatorze-bis

Essas palavras se repetem
essas palavras se repetem
e eu não quero mais elas
essas palavras mazelas
essas palavras, más elas
e eu não quero, mas elas
se repetem

Mazelas,
se palavras eu quero
não más, se elas se repetem,
mas, se repetem
repetem mais palavras
não eu
essas não quero
se más elas se repetem
palavras quero eu
não mazelas

Quero elas,
mas não palavras más,
essas mais se repetem
se eu... (e mazelas)

16 setembro, 2010

e estávamos nós dois
a limpar lágrimas
eu, de sono
e ela de tristeza mesmo
que é do que deviam ser feitas todas elas,
se o feitio não fosse tão errado
quanto meu sono numa terça feira

15 setembro, 2010

Ponte

O sono parece sempre apagar aquelas insônias do dia anterior
e acordo vazio
chio, por que não lembro?
quero saber do meu humor
um momento antes do sono
que alegria eu sei que era
tal era, de cobertores, o meu abono

mas hoje,
com a ducha morna na nuca,
sem ter abrido ainda os olhos
peço que tenha ido com você
toda a lembrança de sua partida

09 setembro, 2010

Coisa

Pra ler esse poema
é necessário:
subverter o pensamento
multiplicar pela base do produto
sujá-lo de unguento
achar o quadrado de pi
tangenciar o pib estratosférico
se formar técnico estadual
tocar Bach em quarti-fuso
enquanto bate ovos de bolo
escovando os dentes de uma baleia
na párabola da expressão
ter o pé nas nuvens
enquanto lambe o chão.
tudo isso
são

06 setembro, 2010

um poema pode ser uma linha só logo sai da agulha já vira pó como a gente logo diz ô dó

Seco, seco

            Os dias não iam quentes, mas iam secos. E a Tropicália de Caetano era a Bahia, entrando pela janela de nuvens brancas ou nuvem nenhuma, céu azul, azul... ás vezes um pássaro, um jato. No quarto só um livro, nunca terminado, no canto os sapatos, e na minha cabeça a saudade. Amanhã, amanhã sim, vou pegar o ônibus, do mesmo cheiro, de suor de trabalho de perfume de mulher de saudade de copo de café de café com leite de café amargo de pasta com os trabalhos de camisas ligeiramente desabotoadas de homens cansados de homens pouco vividos de jovens universitários e futuros resolvidos de fones de ouvido de jornais baratos sangrentos de saco cheio daquilo. Mas, encontrar você no fim do caminho, um segundo, aula, um intervalo, aula, um almoço. Te chamar de menina, não de moça, como chamo as atendentes da clínica do exame de sangue. Os dias são secos, eu nem lembro como é a chuva. Só sei que quando te arranho por debaixo da camisa, fica uma marca, que nem branca é, porque branca já é sua pele. E as aulas tornam-se difíceis, matam-me o amor, eu faço uma lista, anti-amores: distância, escola secundarista técnica, mais do que cinco latas de cerveja, conhaque (em qualquer dose maior que uma dose, mas você nunca mede), dias quentes e secos demais (salvo aqueles deitados no chão frio da minha casa, de ventilador ligado, sem camisa, e corpos ainda suados, “eu ganhei um tapete”), conversas de família em almoços e lanches da tarde – hoje ninguém mais janta – salvo os assuntos animados, nos primeiros trinta minutos de conhecer família. Mas, passado isso tudo, ainda tem um mundo, esperando lá fora, eu só conto as horas, tu sorri e choras, mas a carne ainda é nova, e a pele ainda é lisa; a janela aberta faz entrar a brisa, e fica um pouco menos seco. Baldes d’água no nosso quarto.

05 setembro, 2010

quem são essas pessoas todas que me povoam?
que fazem meu gesto,
que gesto é meu? eu corro nas pessoas,
eu corro de olhares,
por todos os cantos
eu observo os santos nas paredes de outras casas
eu rio com os moradores
quão santos são

que alegria é essa que eu carrego?
não nego, vivo, não nego
choro, rio
caudaloso é estar feliz
assim, de borboleta na ponta do nariz

Ameno-amores, sobre jornal e mulheres

Fecho o jornal
(baixo astral - cabível)
penso nas garotas,
oposto indomável,
posso perder todas
e posso ter só uma
mas no fim
ainda sou escravo
pois o amor
ainda é indizível
e não cabe
nas páginas fecháveis
do jornal.

02 setembro, 2010

a... cred... ito

Eu acredito num mundo
de pessoas, não de coisas,
de baixo pra cima
de samba e de rima
de festa, mas de trabalho,
eu acredito
mas também sei do mito
do lúdico,
sei que sou único
e conheço cada dia mais
outros,
que viram sorrisos
regado a suco ou cerveja,
meu amor pelas pessoas
se faz na certeza
de que são
e são profundas

acredito e desacredito
quando fico com medo, grito
e ele responde silêncio...