26 novembro, 2011

            O mar não esteve sempre aqui
            alguma terra se levantou
                                   a dar passagem
            também a luz
            acha o nosso tempo para se mover
            muito
lento

24 novembro, 2011

            Eu
            pouco sei do tempo
            porque meu tempo
            aqui é pouco.
           
            A idade
            da terra, até me aparece
            mas ainda
            é fosca.

            Transparentes
            só, às lágrimas
            por saber
            que vivem mais
            as coisas mortas
            e as árvores.

15 novembro, 2011

            a cidade de
            Piedade do Rio Grande
            é cortada por uma rua extensa
            que se mistura com a estrada
            como se ela toda se movesse
            e as nuvens é que estivessem paradas.
           
            Nesse país tão grande
            de rodovias e latifúndios
            que não se acha
            igual, e nos quais a gente
não se acha,
            a genealogia deixa
            os geógrafos doidos.

06 novembro, 2011

poema mal-divido como eu/você

            só me alcançam a
            memória /uns vagos
traços seus – cabelo, íris,
cheiro – como se fosse uma
música /da qual eu só lembrasse
            os dois primeiros /versos e agora
            impossível adentrar mais /não
            consigo te procurar /em discos ou
            no cheiro dos livros do centro
            da cidade /pra dentro do meu quarto
            o pensamento /circula uma
            avenida só onde passou seu
            portaestandarte /há sempre a
nostalgia de um carnaval
/que nunca vivi só
nos livros

31 outubro, 2011

            sobrevivo por entre
            dois lugares
            pensamentos e olhares
           
funcionando ao mesmo tempo
neblinam.

            tanto aqui dentro quanto lá fora
            a atenção me escapa   

17 outubro, 2011

faço meu carnaval

            Esse fitar arredio mudo da alvorada
            no qual as palavras se perdem
            decompostas reveladas do filtro fino da seda
que são – sem cor,

como se o amarelo solar fosse luz primária
            e espessa
não sabemos ainda
            se o violão anuncia a festa da vinda
            dos bares às casas
            ou se as brasas; fornalhas
            clamam no seu calor
            por fazer rolar os suores magros
            dos moços indistintos.
           
            Talvez tudo aconteça ao mesmo tempo
            serpentina e serpentário
            ou talvez o salário não dê pro fim do mês

09 outubro, 2011

praxes n.3

            vulcânica
            nosso amor é uma rocha incrustada no peito
            um não ter jeito
            incandescente
            eterno poente melancólico
            – Descansa atrás dos meus olhos

06 outubro, 2011

praxes n.1

            Morrer nesse calor
            destruir (por) enquanto solução
            dissolver o tal do bem me quer
            deglutir aquele não
 ,  te quis

18 setembro, 2011

a gente menos espera

            O perdão é anterior à palavra
            acontece na boca da aurora
            vem espraiado, braços de sol
            enraíza: carne dos pulsos
            materializado
na face em lágrimas
           
            Tão mais eterno que o chiado
                                   no fim da vitrola
            traz paz no silêncio
e silencia
            enquanto o poente consola

17 setembro, 2011

            Estímulos:
            epígrafes
            para sensações
            esfinges, indecifráveis febres
            a quem é louco o bastante
            para pisar fora de casa
            e estar
           
            invulnerável
            ao canto dos pássaros
            e o sopro dos pequenos nadas da praça
            manifestando-se
            na forma de insetos
            ou folhas secas
            secando e sumindo
            sorri

            enquanto somos capazes de ver
            apenas um
dos duzentos passos da eternidade
            e o reflexo vago
            de meia-vida da lua

07 setembro, 2011

Poema descorado

            Me deixa e vai embora mesmo
            me deixa e larga tudo que foi até agora
            me deixa e me deixa
            me deixa no meio da estrada
            esquece que bifurcou
            diminuiu, virou caminho de terra
            só tem poeira
            sobre as nossas fotos
            que encerram as datas
            em que você me deixou
            pensando
            me deixa pensando
            mas não me deixa sentir
            saudades
            me deixa província
            me deixa cidade
            me deixa em casa
            depois do cinema e do motel
            me deixa flores em cima da mesa
            me deixa um recado amarelo na porta da geladeira
            me deixa sozinha de manhã
            que é pra eu não ver a bagunça do seu cabelo
            me deixa sozinha à noite
            que é pra eu sentir vontade
            e a gente se falar por telefone
            me deixa contar nossa história
            de trás pra frente
            me deixa do avesso
            me deixa encostar a mão
            e fingir que nada fiz
            me deixa feliz
            me deixa solteira
            ou simplesmente me deixa aqui

            me deixa
            com lágrimas no rosto
            me deixa

01 setembro, 2011

22 agosto, 2011

Destino Vilarinho

 “ela chega pela voz de metal
envia assim a senha: audição impessoal
            pensamento comprimido a fingir 'não é comigo
            sentidos segurados, corpo em estado de atenção”
(O livro de horas do metrô #3 para a hora de ouvir má notícia, Luciana Tonelli)















            destino sempre incerto
            mesmo o futuro perto horizonte
e cinza
Minas versão concreto
           
garimpo de pessoas
            o livro de horas na mão
            o ferro das horas no pulso
            ponteiro do tédio,
olhar incitado:
            horizonte concreto
            balança discreto, o som das tábuas grossas
grosserias lá por baixo dos pés
o sol mofina, mofando no banco de plástico
verde, se visses,
verdes os eucaliptos pra esconder a favela
(pinguela entre dois pensamentos)

o ódio do movimento insensato
de cogitar um bom rapaz, ladrão, bom rapaz,
trabalhador, bebum, moça bonita, artista, performer
pixadora, dread-locks, decote, sandália, pulseira, silicone, botox

voz de metal, monstro máquina incondicional, que fala
não cogita a
lente bifocal é o meu olhar pensante, mar de outros
individual, casais, tanto faz

chegar,
descer,
sem pensar,
mar sem fim
            mar sem mar
ela, dona invisível da voz, diz que sim.
Vilarinho, da linha
mais fim, dá linha
empina e sobe: o papagaio na beira da avenida.
Sol de novo, chego em casa
 



21 agosto, 2011

réquiem de um segundo antes


            Hoje eu vou escrever um poema
            que vai apagar todos os anteriores
            e suas dores jorrando nas linhas
            as minhas que já foram e vem
                                               e vão
            estação de folhas caindo para os girassóis
            se abrirem, novo
poema, dia e tempo
            para pensar e mover os dedos
            na direção correta os pés firmes
            não brigar com o vento, ser envolvido
                                                           e voar
            voar

16 agosto, 2011

poesia pra

Não falo por mim
            escrevo nos outros
            queria assim
            marcar os corpos
            e colocar todos os olhos
            diante do espelho
            poesia pra conversar
            com si mesmo

11 agosto, 2011

Interurbano II


            alô,     
            você me esqueceu?

04 agosto, 2011

Desengavetado


            Preciso aceitar meus ciúmes
            e a minha inveja
            talvez a dor que tudo isso cause
            antes de dar o próximo passo
            respirar, e desfazer
            laços, nós e cordas vocais emboladas
            com tudo o que disse mas queria
            ter dito melhor, pois não foram
            mais do que palavras por trás
            dos meus olhos
            podiam as lágrimas ter caído na hora certa
            mas não quero mais saber do que
            não pode ter acontecido
            porque muito não aconteceu
            e todo o pequeno resto sou eu
            e a minha história, guardada
            ou esquecida na minha memória
            e em outras
            há marcas das quais não lembro
            de sangue ou de tempo, velhas
            ou novas demais para serem percebidas
            meus olhos finalmente detidos, parados
            e pasmos no branco do teto
            com a cabeça afundada no tapete
            deixam os pensamentos retornarem a todos os lugares
            dos quais fugi
            e irem de novo além, em mim
            encharcados de mágoas sem achar a superfície
            enquanto os outros sentidos repousam
            porque o coração já é demais e grita
            roubando toda a atenção
            agora percebo, roubei toda alegria que pude
            das horas nas quais não estive
            e meus olhos estavam parados
            dedos fugindo por páginas ou superfícies de peles
            e pêlos, cachorros encontrados embaixo do banco da praça
            não por estarem sozinhos
            mas por também terem fome de tudo
            língua pra fora dentes à mostra
            me fazerem desconfiar que
            uma coisa leva à outra, e vice-verso

            empilho no meu castelo-palavras que desmorona
            outra menção argamassa e poeira vermelha
            ambição
            vermelha injetada nos olhos
            ainda a fome, de um tudo impróprio
            e o ronco por dentro
            rouco
            de ter guardado na garganta gavetas inteiras do que
            deixei de lado
            e tive medo de dizer
            porque dizer é estopim,
            risco, chance, é colapso
            e o medo é muito mais, e inimigo
            tenho medo de estar vencido
            e assim dizendo concretizar
            é preciso parar.
           
            ...
           
De novo
            respiro

02 agosto, 2011

            Pra quê dizer
            que não
            se a resposta é
            talvez
            por que dizer
            eu quero
            se eu sei que vou
            poder
            pensar
            que desespero
            se na hora
            respiro.

27 julho, 2011

abraçoscartola

            Como naquele velho
            samba
            em mim ainda mais novo
            do que esse sentimento explosivo
            de amor angustiado
            e guimbas de cigarro
            jogadas no asfalto
            refletindo a chuva
            por sobre, caindo o prédio alto
            molhado ou chorando
            por todos os poros:
            suado
            amor bem cadenciado,
tamborim marcando
o fim.

23 julho, 2011

            volta chuva
            vai culpa
            a gota esmiúça
            e dilui
            muda
            os olhos por dentro da janela do outro lado da rua

            mesmo que fosse minha
            ou estivesse nua
            mesmo que fosse sua
            a mulher, ainda aninha!,
            na clavícula curva
            a gota mais fria e crua,
refletindo amarela de poste
alegórica melancolia pura.

            pura chuva,
            purifica.

20 julho, 2011

ação e relação

                Fazer carinho
                em você
                é
                fazer carinho
                em mim.

13 julho, 2011


"É seu."
"Leva logo, é tudo seu."

07 julho, 2011

Rec. botão vermelho

            É que a possibilidade de eternizar tudo
me inquieta. Quando estoura o flash,
e eu vejo um brilho de metal de aliança,
e uma dança gravada numa fita cassete.

flash, black tie, socialite. Isso, se desse certo
do contrário já é demais pra imaginar.
É que a possibilidade de explodir tudo
me desperta. Todo dia, às seis.

04 julho, 2011

Leiteratura

Ainda é cedo
            antes do dia
            ainda é frio
            e o café quente,
            atrás
os olhos
            dormem,
            a língua amarga rotina
embaça
            retina
correm rápido as coisas
canecas novas pretas
toalha
amacia
ou vapor
quente
olhar inerte
na caixinha do leite
o ministério da saúde adverte.



 a vaca Lhada, stencil.

18 junho, 2011

o que (ainda) tem de ser feito

            acordar com o rosto de uma garota linda
            a um palmo do seu
            tomar café e comer broa com a garota
            andar pelo bairro enquanto as crianças fantasiam
chamar a garota para ir na cachoeira 
de bicicleta, se ela não quiser
nina-la e deixa-la dormindo
ir sozinho com o vento nos cabelos
entrar na água gelada pouco a pouco
boiar e fitar o céu azul sol
fazer alongamentos com os pés nas pedras quentes
olhar o horizonte de pedras quentes
voltar e passar na bica, parar no mercadinho
comprar as duas mexericas mais bonitas do mercadinho
comer enquanto anda de bicicleta,
vento cabelos dentes, sorver o suco do dia
chegar em casa e acorda-la, ou se deitar do lado.
ganhar um dia, dois
a dois

16 junho, 2011

            Todo dia quando volto pra casa
            há uma borboleta amarela
            batendo asa
            batendo o sol no rosto
            batendo meu peito batendo
            saudade.
            E eu não consigo
            lhe dar nome
            ela é mais livre que eu
            meu olhar se perdeu
            e ela ainda
            amarela.

13 junho, 2011

Flerte

            – Aposto todas as minhas
            cinco fichas azuis-bordô
            e três verdes-veludo.
           
            – Vai perder tudo
            e o que nem tem
            – Não tenho nada, estou sempre blefando
           
            – E eu nunca sei jogar.
            Sempre esqueço as regras,
            aí é um desnosacuda.
            Apelo pra buda, mas jogo é pecado, estou enrolado
            russas frases filosóficas na roleta
            não entendo nada, o mundo, nada
                        o bilhar encharcado
                        bola oito, fogo olhar cruzado.

            A grana escorre.
            Perfume foi embora
            sombra de porta fechando.

06 junho, 2011

pássaro pequeno

            convivo anos com as pessoas
            e não sei dizer como são
            por não querer acreditar
            que elas sejam assim
            e para dar licença a todo mundo
                                   de ser o que quiser
            como eu queria ter também
            bicos, penas, asas e o chão
            de onde sair.

eu fechei os olhos, ou então olhei fundo demais. e quando acordei.

31 maio, 2011

Canção da Tamoios (esq. com Bahia)

            “Um dia vivemos!
O homem que é forte
Não teme da morte;
Só teme fugir;
No arco que entesa
Tem certa uma presa,
Quer seja tapuia,
Condor ou tapir.”
(Canção do Tamoio, Gonçalves Dias.)

Pela noite passamos!
            O homem que é esperto
            Não teme o concreto
            Só teme o luzir
            (azul, vermelho, azul, vermelho);
            No traço que expressa
            Tem certa uma preza
            Quer seja tapume,
            Portão ou muro.

22 maio, 2011

Sente-se

Sentimento
            Da sua
volta
            me pré
            passa e
            me pré
            para: para
sua partida.

Dois
sentidos,
nós
dois.

11 maio, 2011

Saudade Pop Cores

            Meu bem, eu entrei
            Pra banda
            Do Sargento Pimenta
            Agora, vê se me aguenta
            Piegas assim:
            Volta pra mim
            Volta pra mim
            Volta pra mim

            Meu bem, eu entrei
            Pro clube da banda,
            A banda do clube
            E aprendi todos os afro-sambas
            Feitos só pra mim
            Como você

            Como você
            No café, no almoço, no jantar
            Te assisto na tevê
            No cinema, na retina
            Distraio-me
            Te leio
            Nos gibis, pois os livros
                        andam pesados calhamaços de algúrias
            Te leio nos catálogos
            Seu número
            Trocado junto com a fechadura
            E o seu e-mail.
            E o seu nome?

            Só me resta a Vanda,
            Minha bicicleta vermelha.

29 abril, 2011

Coleção de Palavras

           Cappuccino
            Parapeito
            Horizonte
            Estrelado
            (paro...)

            Recordo
            Domingo
            Derradeiro
            Carnaval
            (...xítona)

18 abril, 2011

Caminhos

            sabe aquela poesia que você me deu?
            você esqueceu o título, e eu pus:
            Nome seu.
            Mas depois falhou, o título original
            era “caminho”; o seu?
            cada um seguiu.
            Cada um, menos eu.
            Estou parado, ainda pensando pra sempre
            como o chiado no rádio
            fraco, suspiro, por trás de um cachecol velho:
            não me arrumo mais pra nada.

17 abril, 2011

            eu nunca soube a data do seu aniversário,
            mas não faz diferença
            nunca quis ser mais do que alguém pra você,
            falar mais do que o silêncio,
            olhar mais do que nos seus olhos
            ou ser mais do que a verdade.
            nunca quis te mostrar nada
            (como gosto de clichês!, você também sabe)

            se é bom, e sempre é,
            é porque não somos nada mais nada menos
            que duas pessoas bem resolvidas
            e bem colocadas, lado a lado,
            nunca quis mais do que tardes de sábado
           
            inúteis, imóveis
            e tão belas
            quanto as palavras que não falamos,
           
            ainda, não é a noite que vai,
            vamos nos pondo do sol
            criando outros caminhos pra mesma amizade.

15 abril, 2011

outro lugar, ainda: aqui

Outro lugar, ainda: aqui
            o sol às três da tarde
            arde os livros lidos no silêncio
            das paredes brancas
            e mudinhas novas postas
            no parapeito da janela
            de onde o horizonte,
            então, sem prédios,
            menos de cem crianças
            e mais de cem proximidades
            o véu das nuvens, abre-se
            porque não cabia antes, na minha vontade
            mais tranqüilidade, até incômoda
            até que a cômoda com minhas roupas de frio
            (esperando o inverno, rigoroso)
            podia estar mais suja
            de fuligem; e não tem mais altura
            que ter vertigem, quase me engana
            mas, no meio de Minas, cidade plana, vale.
            Estrada verde, e se der sede
            bica, água simplesmente, nada distante
            e os praticantes
            da sagrada penitência
            pra uma ou pra outra pergunta,
a resposta, sussurra. O velho sentado no portão
paciência.

05 abril, 2011

A Tardinha – Um pouco de [...]ela e de Victor

            Parece que como esse bolo há três dias. Os últimos três dias, tem gosto de bolo, macios. É também o terceiro pedaço, como se eu fatiasse a minha consciência, exposta sobre a cama, em pedaços, como os postais que você me manda. Ou as fotos que tira, as cabanas cobertas de neve. Nós não éramos mais do que dois, em um bairro, você se lembra? E você sonhava em revelar você mesma aqueles filmes fotográficos, mas nunca conseguimos convencer sua avó a deixar-nos vedar o banheiro. E sempre tinha uma chuva melhor do que a outra, quando não ousávamos violar o cinza da tarde com nenhum movimento, e nos intervalos entre os álbuns, entre nossas pernas, os sons que nos sussurrava o vento, trocávamos algumas palavras e depois o silêncio, quando então tínhamos certeza de que os silêncios em nossos corações fluíam juntos. Compasso de chuva. Nossos corpos e nossos braços pesavam exatamente com as folhas escorrendo. as gotas, fazendo aqueles riozinhos nos cantos, todos, e deixando brincos translúcidos nos fios. Minhas orelhas cobertas pelo grande edredom rosa, sempre o único que você tinha para me emprestar... mande mais fotos.

23 março, 2011

            Um tablete só de chocolate meio amargo
            dois pinheirinhos no jardim,
            e um quarto que eu arrumo se precisar
            e a rua, os meninos jogam bola
            e a grama baixa, foi cortada ontem, sabe?
            Cobertores, café quando quiser
            e um violão que eu tento baixinho
            pra ninguém lá fora saber
            o quanto aqui dentro ia fazer sol:
            se você quisesse,
            se você um dia...
            não é muito mais que uma prece,
            escondida antes do dormir,
            mas te ofereço tudo.

17 março, 2011

            Eu busco saídas criativas
            e busco entradas criativas
            busco portas e costuras e portas e costuras e portas
            busco tonturas, vertigens
            e outras imagens tortas

            colos de mãe em outros solos
            busco bustos onde me reconheça
            e tiro as fotos das paisagens onde me esqueça
           
            eu tento, e penso tanto
            que busco em cantos
            prantos iguais aos meus
            e tanto penso, que escorrem os pensamentos
            pelo vazio imenso de um garoto tonto
           
            e de nada valem; se não me encontro.
            Eu busco sempre, mas busco brando
           
            que peso demais, atrapalha o passo.
            Ele tinha um blog
            Ela lhe disse que lia
            Ele disse que a amava
            Ela, de longe, sabia

03 março, 2011

Interurbano I


            – Isso não se explica
            no telefone; pára!, não me irrita.
            Vem cá, me come
            cita, Vinícius, me excita
            e me diz,
por que é que você
            foi embora e não me quis?

            Volta, amor, volta.

01 março, 2011

Pombos & Alvoroço

            Tempo: passa
            tudo arde, tudo morde
            mordo o lápis, perco fácil
           
            foco:

            Compro in loco,
            conto os blocos, faltam tantos
            peço os santos: “tempo, passa...”

            praça:
           
            Espero no banco,
            papel em branco, pombos & alvoroço
            traço seu rosto, ainda é terça,

            fosso:

            Me afundo num poço
            pensamento exposto,
            num sorriso bobo; e os olhos,
dança. doce

            lembrança:

            Flor, a mão treme
            o céu sublime, seu cheiro é leme
            viro o rosto, navego olhar

            calçada:

            avisto caminhar,  penso não crer
            nada explode mais
            do que você
           
            aparecer.

22 fevereiro, 2011

            Se eu morresse agora
            e esse cheiro de tinta
            se eu morresse agora
            e esse sangue seco nas unhas
            se eu morresse agora
            e essa mãe que às vezes chora
            se eu morresse agora
            e também o mundo
            se eu morresse mudo
            ou se eu gritasse,
            morresse e gritasse e morresse mais
            e morresse agora
            se eu morresse rindo
            e esse dia lindo          
            e o preto fosco
            e no bálsamo oco
            coubesse a minha morte
            se eu morresse vivo
            ou transmutasse em corpo
            soprasse vida a fora
            do meu peito morto
            se eu morresse torto
            entortasse o ventre
            e vomitasse o sempre
            que era e era sempre,
            sempre era meu
            se eu morresse agora
            e me enterrassem em um caixão de fel.

16 fevereiro, 2011

            As paredes aqui já mexem sozinhas,
            em textura
            em feridas feitas a suaves mil toques
            um rio, os vincos inevitáveis do pincel (retoques)
            meus olhos vidrados;
            tudo molhado.
           
            as paredes daqui já quase falam
            ecoam lisas
os bateres de talheres,
reflexos convexos
e os choros abafados

os azulejos daqui já conhecem
os lençóis que vão;
de tanto arrastar e
o pendurar nas janelas

as janelas daqui...
deixam renovar o ar. Sábias
que lá fora
há montanhas e as coisas atrás delas
e montanhas atrás delas e mais
coisas,
atrás delas...
– Eu sou, meio assim, fora de ordem
eu ponho os pingos e depois os i’s
e não importa mesmo
eu ponho a casa num lugar a esmo
e depois gosto, e depois moro
eu morro, e depois vivo
eu subo, e depois sigo

Eu sou, meio assim, o não-ser
fora de mim ficam amor e prazer
que explodem de tanto contratempo
entrando pelos ventrículos, aqui dentro

Faz-se momento; e em lugar nenhum
faz-se o tempo e em tempo algum
fa-ce da espada o braço de Ogum

Eu sou, meio assim, fora de ordem
eu amo e depois amo.

05 fevereiro, 2011


            se digo ou se não digo?
            você puxa tudo pelos meus olhos
            murcha todos os momentos distantes
            durações de antes
            depois
            você, pois, você, pois, você, pois
            foi; quais lugares?
            quanto de açúcar?
            gosta de quê?
           
            aceita, vira o rosto
            suspeita
            por de trás dos óculos
            traça os métodos
            tira os rótulos
            força a cópula de nossos passos
            converge o nosso estar
            o mesmo lugar
            me falta –
            falta,
salta o coração
treme a mão.
porque você não.
Você não,
            não se incomoda com ninguém olhando
            não fica se segurando
            diz amando
            destrançando – os nossos nós
            reduzindo: medos e dó
            closes e lentes
            sente que às vezes
            é até cinema
            o amor, até filme
            nós dois, até crime –
            tanto.

12 janeiro, 2011

            vejo essa casa
            essa casa toda
            com três lances de escada e só
            na superfície toda branca,
            e no verso, preto fosco;
            depende pra onde olho,
            depende pra onde olho e vou.
            Subo e

            depois desço:
            as paredes, a gramatura,
            os vincos da fibra de celulose
           
            o contraste preto-branco da casa
            é tudo o que lhe dá sentido
            e vejo isso agora
            em memória,
            se torna tudo colorido
            em imaginação

            e não tenho medo das criaturas daqui
            nem das janelas quadradas,
            como os baques surdos da.
casa:

            Que eu vejo
            e logo deixo
            meus olhos correm rápido
            e eu me solto mais