22 fevereiro, 2011

            Se eu morresse agora
            e esse cheiro de tinta
            se eu morresse agora
            e esse sangue seco nas unhas
            se eu morresse agora
            e essa mãe que às vezes chora
            se eu morresse agora
            e também o mundo
            se eu morresse mudo
            ou se eu gritasse,
            morresse e gritasse e morresse mais
            e morresse agora
            se eu morresse rindo
            e esse dia lindo          
            e o preto fosco
            e no bálsamo oco
            coubesse a minha morte
            se eu morresse vivo
            ou transmutasse em corpo
            soprasse vida a fora
            do meu peito morto
            se eu morresse torto
            entortasse o ventre
            e vomitasse o sempre
            que era e era sempre,
            sempre era meu
            se eu morresse agora
            e me enterrassem em um caixão de fel.

16 fevereiro, 2011

            As paredes aqui já mexem sozinhas,
            em textura
            em feridas feitas a suaves mil toques
            um rio, os vincos inevitáveis do pincel (retoques)
            meus olhos vidrados;
            tudo molhado.
           
            as paredes daqui já quase falam
            ecoam lisas
os bateres de talheres,
reflexos convexos
e os choros abafados

os azulejos daqui já conhecem
os lençóis que vão;
de tanto arrastar e
o pendurar nas janelas

as janelas daqui...
deixam renovar o ar. Sábias
que lá fora
há montanhas e as coisas atrás delas
e montanhas atrás delas e mais
coisas,
atrás delas...
– Eu sou, meio assim, fora de ordem
eu ponho os pingos e depois os i’s
e não importa mesmo
eu ponho a casa num lugar a esmo
e depois gosto, e depois moro
eu morro, e depois vivo
eu subo, e depois sigo

Eu sou, meio assim, o não-ser
fora de mim ficam amor e prazer
que explodem de tanto contratempo
entrando pelos ventrículos, aqui dentro

Faz-se momento; e em lugar nenhum
faz-se o tempo e em tempo algum
fa-ce da espada o braço de Ogum

Eu sou, meio assim, fora de ordem
eu amo e depois amo.

05 fevereiro, 2011


            se digo ou se não digo?
            você puxa tudo pelos meus olhos
            murcha todos os momentos distantes
            durações de antes
            depois
            você, pois, você, pois, você, pois
            foi; quais lugares?
            quanto de açúcar?
            gosta de quê?
           
            aceita, vira o rosto
            suspeita
            por de trás dos óculos
            traça os métodos
            tira os rótulos
            força a cópula de nossos passos
            converge o nosso estar
            o mesmo lugar
            me falta –
            falta,
salta o coração
treme a mão.
porque você não.
Você não,
            não se incomoda com ninguém olhando
            não fica se segurando
            diz amando
            destrançando – os nossos nós
            reduzindo: medos e dó
            closes e lentes
            sente que às vezes
            é até cinema
            o amor, até filme
            nós dois, até crime –
            tanto.