22 agosto, 2011

Destino Vilarinho

 “ela chega pela voz de metal
envia assim a senha: audição impessoal
            pensamento comprimido a fingir 'não é comigo
            sentidos segurados, corpo em estado de atenção”
(O livro de horas do metrô #3 para a hora de ouvir má notícia, Luciana Tonelli)















            destino sempre incerto
            mesmo o futuro perto horizonte
e cinza
Minas versão concreto
           
garimpo de pessoas
            o livro de horas na mão
            o ferro das horas no pulso
            ponteiro do tédio,
olhar incitado:
            horizonte concreto
            balança discreto, o som das tábuas grossas
grosserias lá por baixo dos pés
o sol mofina, mofando no banco de plástico
verde, se visses,
verdes os eucaliptos pra esconder a favela
(pinguela entre dois pensamentos)

o ódio do movimento insensato
de cogitar um bom rapaz, ladrão, bom rapaz,
trabalhador, bebum, moça bonita, artista, performer
pixadora, dread-locks, decote, sandália, pulseira, silicone, botox

voz de metal, monstro máquina incondicional, que fala
não cogita a
lente bifocal é o meu olhar pensante, mar de outros
individual, casais, tanto faz

chegar,
descer,
sem pensar,
mar sem fim
            mar sem mar
ela, dona invisível da voz, diz que sim.
Vilarinho, da linha
mais fim, dá linha
empina e sobe: o papagaio na beira da avenida.
Sol de novo, chego em casa
 



21 agosto, 2011

réquiem de um segundo antes


            Hoje eu vou escrever um poema
            que vai apagar todos os anteriores
            e suas dores jorrando nas linhas
            as minhas que já foram e vem
                                               e vão
            estação de folhas caindo para os girassóis
            se abrirem, novo
poema, dia e tempo
            para pensar e mover os dedos
            na direção correta os pés firmes
            não brigar com o vento, ser envolvido
                                                           e voar
            voar

16 agosto, 2011

poesia pra

Não falo por mim
            escrevo nos outros
            queria assim
            marcar os corpos
            e colocar todos os olhos
            diante do espelho
            poesia pra conversar
            com si mesmo

11 agosto, 2011

Interurbano II


            alô,     
            você me esqueceu?

04 agosto, 2011

Desengavetado


            Preciso aceitar meus ciúmes
            e a minha inveja
            talvez a dor que tudo isso cause
            antes de dar o próximo passo
            respirar, e desfazer
            laços, nós e cordas vocais emboladas
            com tudo o que disse mas queria
            ter dito melhor, pois não foram
            mais do que palavras por trás
            dos meus olhos
            podiam as lágrimas ter caído na hora certa
            mas não quero mais saber do que
            não pode ter acontecido
            porque muito não aconteceu
            e todo o pequeno resto sou eu
            e a minha história, guardada
            ou esquecida na minha memória
            e em outras
            há marcas das quais não lembro
            de sangue ou de tempo, velhas
            ou novas demais para serem percebidas
            meus olhos finalmente detidos, parados
            e pasmos no branco do teto
            com a cabeça afundada no tapete
            deixam os pensamentos retornarem a todos os lugares
            dos quais fugi
            e irem de novo além, em mim
            encharcados de mágoas sem achar a superfície
            enquanto os outros sentidos repousam
            porque o coração já é demais e grita
            roubando toda a atenção
            agora percebo, roubei toda alegria que pude
            das horas nas quais não estive
            e meus olhos estavam parados
            dedos fugindo por páginas ou superfícies de peles
            e pêlos, cachorros encontrados embaixo do banco da praça
            não por estarem sozinhos
            mas por também terem fome de tudo
            língua pra fora dentes à mostra
            me fazerem desconfiar que
            uma coisa leva à outra, e vice-verso

            empilho no meu castelo-palavras que desmorona
            outra menção argamassa e poeira vermelha
            ambição
            vermelha injetada nos olhos
            ainda a fome, de um tudo impróprio
            e o ronco por dentro
            rouco
            de ter guardado na garganta gavetas inteiras do que
            deixei de lado
            e tive medo de dizer
            porque dizer é estopim,
            risco, chance, é colapso
            e o medo é muito mais, e inimigo
            tenho medo de estar vencido
            e assim dizendo concretizar
            é preciso parar.
           
            ...
           
De novo
            respiro

02 agosto, 2011

            Pra quê dizer
            que não
            se a resposta é
            talvez
            por que dizer
            eu quero
            se eu sei que vou
            poder
            pensar
            que desespero
            se na hora
            respiro.